A definição de uma pessoa culta - e o curr¡¦ulo adequado de uma faculdade para formar essa pessoa - tem sido assunto de discuss¡¦s cont¡¦uas nos Estados Unidos desde a d¡¦ada de sessenta. At?aquela ¡¦oca, poucas pessoas questionavam a noção de que o estudo das ci¡¦cias humanas e das obras cl¡¦sicas da civilização ocidental era o enfoque adequado. Mas com a conscientização das minorias, a mudan¡¦ na percepção do papel das mulheres na sociedade, e as exig¡¦cias econ¡¦icas da era da informação, muitas instituições de ensino nos Estados Unidos est¡¦ procurando redefinir, atrav¡¦ dos seus curr¡¦ulos, a noção do que significa ser uma pessoa realmente culta. A Universidade de Columbia, instituição americana de grande prest¡¦io, durante muitos anos ofereceu um curr¡¦ulo que incorporava a formação human¡¦tica cl¡¦sica. David Denby, que se formou na Universidade de Columbia, voltou h?pouco tempo ?sua antiga escola e passou um ano examinando o seu curr¡¦ulo de humanidades, recentemente revisado. O que se segue ?uma eloq¡¦nte declaração sobre o valor de uma formação em ci¡¦cias humanas.
Quando falamos sobre uma pessoa culta, nos referimos a algu¡¦ que tenha conhecimento, atrav¡¦ de leitura, de Homero, Plat¡¦, a B¡¦lia - o Novo e o Velho Testamento - e Shakespeare. Essas obras s¡¦ absolutamente essenciais para a tradição ocidental, assim como tamb¡¦ seriam Santo Agostinho, John Locke, John Stuart Mill, a f¡¦ica de Newton e a biologia de Darwin. Isso seria o m¡¦imo. E, naturalmente, do ponto de vista dos Estados Unidos, os Documentos Federalistas e a Constituição - - as obras dos Fundadores da Nação - - tamb¡¦ teriam que ser inclu¡¦os. Os conservadores incluiriam tudo isso, e acrescentariam Adam Smith e Frederick Hayek ?lista de leitura obrigat¡¦ia. Eu concordaria com isso.
Visto na sua totalidade, esse conjunto de obras transmite uma noção do que um ser humano ?e do que ele ?capaz - em dimens¡¦s espirituais e ¡¦icas - e tamb¡¦ uma definição do que uma sociedade civil idealmente pode ser. Ao mesmo tempo, ele reflete quais s¡¦ as fraquezas dessa sociedade civil e os perigos que podem ameaçá-la. Acima de tudo, essas obras proporcionam certas noções do que ?um ser - em um sentido secular e espiritual; o que ?um cidad¡¦ e quais s¡¦ os seus deveres e obrigações; e quais s¡¦ as obrigações da sociedade para com os seus cidad¡¦s. Todos esses conceitos s¡¦ b¡¦icos para o que somos. Esta ?a vis¡¦ tradicional, e, na verdade, ela ainda ?absolutamente necess¡¦ia na atualidade.
Para completar a ess¡¦cia de uma pessoa culta, devemos incluir um conhecimento do que as Am¡¦icas eram antes da chegada dos europeus, as contribuições da Am¡¦ica Latina para a civilização dos Estados Unidos, as principais tradições da literatura e da vida intelectual dos negros. A hist¡¦ia da escravid¡¦, a emancipação dos negros, o movimento pelos direitos civis - as obras de W.E.B. DuBois e Frederick Douglass e algumas contribuições contempor¡¦eas - tudo isso seria vital.
Para mim ?interessante e estimulante o fato de que quando eu falo aos jovens a respeito de carreiras nas empresas, tenho a impress¡¦ de que as empresas querem pessoas de car¡¦er. N¡¦ basta possuir certas qualificações t¡¦nicas. Uma boa parte disso ?espec¡¦ica para a função que se desempenha, e pode ser aprendida muito rapidamente se voc?estiver pronto e se tiver capacidade para aprender. Mas as empresas querem pessoas de car¡¦er, que possam se apresentar, tomar decis¡¦s, administrar e ser administradas. Todo o conhecimento que mencionei acima forma o car¡¦er, e eu n¡¦ acho que esse conhecimento est?se tornando menos relevante ?medida que nossa sociedade se torna mais especializada, transformando-se em uma sociedade altamente tecnol¡¦ica. Qualquer um pode digitar n¡¦eros em um computador. Mas para dirigir qualquer tipo de organização de grande porte, ?preciso ter uma perspectiva muito mais ampla. Portanto, quando falamos sobre o treinamento de uma elite, e o que os empregadores est¡¦ procurando nos candidatos ¡¦ posições de responsabilidade, a tradição de uma pessoa culta continua t¡¦ essencial quanto sempre foi.
Nem sempre se pode definir essa tradição. Estamos falando sobre julgamento, car¡¦er, sensibilidade - noções que, pela sua pr¡¦ria natureza, s¡¦ dif¡¦eis de quantificar. Em ¡¦tima an¡¦ise, estamos falando de algu¡¦ que traz consigo a tradição de uma pessoa culta.
----------
David Denby ?cr¡¦ico de cinema da revista New York. Ele ?o autor de Great Books: My Adventures With Homer, Rousseau, Woolf, And Other Indestructible Writers Of The Western World (Simon and Schuster, 1996), um relato de um ano que ele passou, recentemente, imerso nos c¡¦ones da civilização ocidental na Universidade de Columbia, um curso que freq¡¦ntou pela primeira vez trinta anos antes, quando era aluno de graduação naquela escola.
Sociedade e Valores dos
EUA
Revista Eletr¡¦ica da USIA, Vol. 2, N?4,
Dezembro de 1997