Uma Conversa com John D. Kemp
Em qualquer explora��o do campo dos direitos dos deficientes, o nome John D. Kemp invariavelmente ?mencionado. Kemp tem mais de vinte e cinco anos de experi��cia como advogado e ativista em nome das pessoas portadoras de defici��cias. Ele ?o presidente e principal executivo da Very Special Arts (VSA), que se descreve como uma organiza��o que "promove o poder criativo das pessoas com defici��cias." A VSA, que comemora o seu 25o anivers��io em maio de 1999 e que, nessa ocasi��, passar?a se chamar VSA Arts Connection, ?uma rede mundial que possui se��es em 43 estados e 83 pa��es. Kemp conhece muito bem o sofrimento das pessoas com defici��cias: Ele nasceu sem os bra��s abaixo dos cotovelos e sem as pernas abaixo dos joelhos, e utiliza pr��eses para maximizar a sua mobilidade.Recentemente, em uma conversa com Michael J. Bandler, ele apresentou a sua vis�� a respeito da conscientiza��o da defici��cia na atualidade.
P: Teoricamente, o que, na sua opini��, faz com que uma sociedade evolua em rela��o �� necessidades dos seus cidad��s?
R: Acho que ?uma conscientiza��o e uma moralidade a respeito da maneira pela qual ela quer que todas as pessoas sejam tratadas, incluindo aquelas menos afortunadas - ?mais ou menos a mesma coisa que tra��r uma linha abaixo da qual n�� pensamos que o tratamento ?desumano. Trata-se de um padr�� de evolu��o constante, espera-se que no sentido ascendente, um estilo ou dire��o que est?continuamente passando por melhorias.
P: Historicamente, em que ponto o senhor colocaria os prim��dios da forma��o de uma consci��cia no que diz respeito �� pessoas com defici��cias?
R: Se eu tivesse que escolher uma determinada ��oca, em geral, eu poderia possivelmente dizer - baseado no pouco que sei sobre isso - que as pessoas da f?judia, historicamente, t�� demonstrado muito mais calor humano e gentileza em rela��o �� pessoas com defici��cias do que quaisquer outros grupos de pessoas que eu posso categorizar. E isso retroage 2.000 anos. Acho que essa caracter��tica de tratamento leal ?uma coisa inerente �� suas cren��s religiosas e �� suas doutrinas e julgamentos de valor. Mais recentemente, voc?pode voltar ao in��io do s��ulo XIX neste pa��, quando Sidney Howe fundou a primeira escola para retardados mentais, uma escola residencial. Tratava-se de uma iniciativa pioneira. Mas em breve ele passou a ter fortes suspeitas de que a escola ia ser um lugar onde as pessoas seriam abandonadas, e teve s��ias reservas sobre a institui��o que havia fundado. Em seguida o movimento no sentido de segregar as pessoas com defici��cias tomou for��, e prevaleceu durante cem anos.
P: Isso foi o come�� do debate sobre a participa��o das pessoas na comunidade e a inclus��?
R: Sim. E estamos nos distanciando do per��do de interna��o em institui��es que ele iniciou, e tentando adotar um modelo de inclus��. Para dizer a verdade, h?pessoas entre n�� que acham que a inclus�� em todos os setores e em todos os aspectos da vida nem sempre ?o procedimento mais recomend��el para as pessoas com defici��cias.
P: Como assim?
R: H?pessoas que acham que estamos em um per��do de transi��o que deve durar de 20 a 30 anos. Se adotarmos imediatamente o procedimento da inclus�� total, as pessoas que lecionam, ou que est�� envolvidas de outras formas, podem n�� estar preparadas para assimilar de maneira adequada e servir �� pessoas com defici��cias no ambiente integrado em que elas est�� ingressando. Para criar uma oportunidade igual, de acordo com este ponto de vista, as pessoas com defici��cias podem precisar de apoio adicional, separado, para que a oportunidade seja igual. At?que ponto as pessoas est�� sendo bem servidas ?uma quest�� de fato em cada caso e em cada situa��o. Vamos examinar um sistema de escolas regulares. Se o sistema, na verdade, n�� estiver pronto - se n�� tiver havido treinamento suficiente, se o ambiente adequado n�� tiver sido criado, se n�� houver o apoio adequado, tanto natural quanto tecnol��ico, para que as crian��s com defici��cias freq��ntem as salas de aula comuns, a experi��cia ser?um desastre, francamente, para algumas crian��s, se elas forem colocadas em um sistema de total inclus��, de total participa��o na comunidade. As crian��s n�� devem ser responsabilizadas. O sistema ?que deve ser responsabilizado, pelo fato de n�� estar preparado. Enquanto o sistema n�� estiver realmente pronto - e isto exige tempo, conhecimento e esfor�� - haver?ocasi��s em que um sistema separado poder?real��r o desempenho de um indiv��uo.
P: Em outras palavras, primeiro ?preciso preparar o terreno.
R: Certo. Mudar automaticamente da noite para o dia, criando uma comunidade de inclus�� parece ��imo. Mas algumas pessoas ser�� prejudicadas. Eu diria que, em geral, a maior parte dos jovens com defici��cias se daria bem em um ambiente integrado de inclus��. Mas talvez haja 10, 20, 30 por cento que precisam realmente de um apoio adicional, exclusivo, que o sistema ainda n�� pode proporcionar.
P: Por��, mais cedo ou mais tarde, chegaremos a um ponto em que tudo dar?certo.
R: Sem d��ida. Acho que daqui a 20 ou 30 anos vamos olhar para tr�� e dizer, perplexos, "n�� segregamos crian��s com defici��cias em escolas especiais? Porque ser?"de rigeur", ��vio, autom��ico, integr?las. Mas ainda n�� chegamos l?
P: Voltando ?perspectiva hist��ica, especificamente ao per��do p��-guerra, quais foram os primeiros fatos que estimularam o advento do ativismo?
R: A era dos direitos civis provocou a conscientiza��o de todos, especialmente quando se come��u a segmentar os grupos que haviam sido tratados de maneira injusta. Primeiro veio a ra��, depois veio a quest�� do g��ero. N�� viemos em terceiro lugar. A seq��ncia dos acontecimentos foi a seguinte: Houve dois processos legais em 1969 e 1970, ambos envolvendo a educa��o. O queixoso, em cada um dos casos, alegou que, como os contribuintes possuidores de bens im��eis estavam sustentando o sistema educacional, qualquer cidad�� - especialmente se fosse portador de uma defici��cia mental - tinha direito a uma educa��o p��lica, gratuita e adequada. Foi nesse momento que a primeira rodada de decis��s dos tribunais em n��el estadual reconheceu esse direito constitucional. Pouco depois veio a Lei de Reabilita��o de 1973 [1973 Rehabilitation Act], que incluiu a proibi��o da discrimina��o nos programas do governo dos Estados Unidos e a a��o afirmativa nos contratos de presta��o de servi��s para o governo. Embora essas coisas fossem pouco abrangentes, houve uma seq��ncia de outras iniciativas no ��bito do legislativo. Houve tamb�� um caso bastante not��io em 1970, envolvendo uma mulher surda que queria fazer um est��io como enfermeira. Uma faculdade local se recusou a aceitar a sua defici��cia no est��io, pois ela estava sendo treinada na sua profiss��. A escola saiu vitoriosa em uma decis�� de 9 votos a zero da Suprema Corte dos Estados Unidos, tendo como base a Se��o 504 [da Lei de Reabilita��o] que determina que nenhuma entidade que receba aux��io financeiro federal pode discriminar. Est��amos t�� despreparados e t�� desavisados nos nossos procedimentos legais que perdemos. Aquilo foi provavelmente o fundo do po��. A partir da?apareceram alguns excelentes grupos de defesa de id��as dos direitos dos deficientes que t�� como enfoque a cria��o dos argumentos legais adequados e a escolha dos casos certos para serem levados �� comarcas e �� inst��cias superiores.
P: Portanto, de uma certa forma, esse foi o estopim do movimento pelos direitos dos deficientes.
R: Certo. Ao mesmo tempo houve a decis�� de 1970 e depois a lei de 1973, e a guerra do Vietn? Muitas pessoas voltaram feridas. E seja devido a um sentimento de culpa ou a uma sensibilidade mais aguda, alguma coisa aconteceu para estimular a consci��cia social.
P: O progresso parece ter dois aspectos. A sociedade deve responder �� necessidades dos deficientes, mas as pessoas com defici��cias precisam ter orgulho do que podem e devem realizar.
R: O que voc?est?dizendo, na verdade ?que para ser um cidad��, membro da fam��ia, aluno, ou empregado melhor, voc?precisa se orgulhar de si mesmo. O que ?um desafio para n�� ?que 85 por cento das pessoas com defici��cias adquiriram essas defici��cias depois de nascidas.
P: Portanto o senhor, pessoalmente, faz parte de uma minoria.
R: Certo. Vamos imaginar que voc??uma garota desde o primeiro dia de vida. Voc?se sente mulher e ?visto pelos outros dessa forma, com a estrutura hormonal e quaisquer outros atributos que existam. Ou voc?pode ser um afro-americano ou um membro de qualquer outra minoria. Em qualquer um desses casos, voc?nasceu assim, e h?um legado. No nosso caso, dependendo da idade em que voc?adquiriu a defici��cia, voc?muda de uma categoria para outra e passa a integrar um movimento. A pr��ima etapa deve ser a consci��cia de si mesmo e a aceita��o desse novo status e do novo grupo ao qual voc?pertence - o que ?uma grande mudan�� para muitas pessoas. Elas n�� gostam de ser colocadas em uma categoria como conseq��ncia de uma coisa negativa que aconteceu. Parte do nosso movimento, portanto, consiste na elabora��o da aceita��o, por parte das pessoas, da sua condi��o, e do fato de que elas pertencem a um movimento de uma minoria social, o que por si s?j??um grande desafio. Na verdade eu diria que pelo menos a metade das pessoas que adquiriram uma defici��cia no decorrer das suas vidas, ou que possuem uma defici��cia, provavelmente n�� se v��m, necessariamente, como parte de um movimento de uma minoria social. Essas pessoas superaram a sua defici��cia. Elas deixaram a defici��cia de lado. N�� podemos exibir estat��ticas, quando exercemos press�� parlamentar, para dizer que representamos 54 milh��s de americanos. Mas muitos deles acham que fazer parte de um grupo definido ?uma coisa negativa.
P: H?tamb�� um tipo diferente de consci��cia que entra em cena se voc??algu�� como [o ator] Christopher Reeve, que cai de um cavalo quando tem mais de 40 anos, ou se voc??um garoto de 8 anos de idade que de repente fica surdo ou cego.
R: ?verdade. E uma boa parte do que uma crian�� adquire -- otimismo ou pessimismo - ?o que os pais sentem, especialmente no caso das crian��s pequenas. Mas, voc?sabe, eu tenho lido pesquisas sobre as caracter��ticas da personalidade antes e depois da defici��cia. Depois que voc?adquire a defici��cia, voc?tem a mesma determina��o e perspectiva fundamental na vida, que tinha antes. Portanto, se voc?tiver uma personalidade de v��ima antes de adquirir uma defici��cia, essa caracter��tica vai se tornar mais grave. E se voc?v? de maneira otimista, alguma coisa maravilhosa por a? todos os dias, voc?continuar?assim.
P: Fale um pouco sobre a defini��o do que constitui uma defici��cia. Para mim, parece que essa defini��o est?evoluindo.
R: Eu n�� acredito que o termo seja mais abrangente do que era quando n�� o definimos em 1973. A lei que foi promulgada em setembro daquele ano tinha uma defini��o e uma estrutura de tr�� partes. Essa defini��o cobria qualquer pessoa que possui uma defici��cia f��ica ou mental que limita, de maneira substancial uma atividade essencial da vida; qualquer pessoa que tenha um hist��ico de defici��cia; e qualquer pessoa que seja considerada portadora de uma defici��cia. Ficou estabelecido que isso inclui a AIDS, o alcoolismo, as doen��s contagiosas e condi��es similares. Assim como ocorre com qualquer lei referente aos direitos civis, h?sempre quest��s de defini��o que s�� resolvidas logo, em processos legais. Voc?est?definindo os limites do alcance da lei.
P: Bem, o limite se expandiu por meio dos processos?
R: Eu acho que ele ficou definido de maneira mais cuidadosa por meio dos processos legais, mas desde o princ��io ele teve como objetivo proteger as pessoas que possuem uma condi��o f��ica ou mental que limita de maneira substancial uma atividade essencial da vida.
P: Aquele terceiro segmento - qualquer pessoa que seja considerada portadora de uma defici��cia. Isso significa a maneira pela qual a pessoa ?percebida pelas outras?
R: Sim. E escute isso: H?v��ias partes da Lei dos Americanos Portadores de Defici��cias, de 1990 [1990 Americans with Disabilities Act] [ADA] que dizem, essencialmente, que as pessoas que n�� possuem defici��cias podem ter prote��o contra a discrimina��o se forem erroneamente consideradas deficientes e tratadas ou discriminadas tendo como base essa percep��o err��ea.
P: Por exemplo?
R: Voc?sofre uma distens�� muscular, e comparece a uma entrevista mancando. O entrevistador escreve uma observa��o na ficha, "incapaz de permanecer de p?por longos per��dos de tempo..." A pessoa ?vista, erroneamente, como possuidora de uma defici��cia, e tratada como se a possu��se, e ?discriminada. Outra parte da lei trata da retalia��o. Se voc?n�� ?deficiente, mas voc?aborda o seu supervisor e diz a ele que n�� gosta da maneira pela qual a empresa est?tratando um dos seus colegas que ?portador de uma defici��cia, voc?passa a ser protegido imediatamente. Isso significa que a prote��o se expande? Eu n�� acho que a prote��o ?mais ampla do que se pretendia que fosse originalmente. Mas estamos melhorando a nossa capacidade de identificar as condi��es.
P: Uma das quest��s b��icas que devemos explorar, especialmente enquanto estamos falando sobre defini��es, ?a quest�� da sensibiliza��o da popula��o em geral no que diz respeito �� necessidades das pessoas portadoras de defici��cias, at?mesmo em termos do uso da palavra.
R: Eu conduzi, provavelmente, uns mil programas de treinamento de conscientiza��o a respeito de defici��cias, no in��io da minha carreira, em um per��do de aproximadamente sete a dez anos. Eu inclu�� a abordagem intelectual para essa quest�� - o que a lei diz, etc. Em seguida eu acrescentava algumas coisas vivenciais, com aproximadamente uma hora e meia ou duas horas durante as quais as pessoas simulavam defici��cias. A id��a n�� ?ensinar �� pessoas o que ?viver com uma defici��cia - ?ensinar �� pessoas o que significa ser visto por outros como portador de uma defici��cia. Se voc?n�� tiver um membro amputado, voc?jamais saber?como ?- da mesma forma que voc?nunca saber?o que ?a cegueira se voc?n�� for cego. A finalidade do treinamento de conscientiza��o sobre defici��cias para o pessoal de recursos humanos, utilizando um processo vivencial, ?ensinar as pessoas o que significa ser visto como portador de uma defici��cia, e como isso ?diferente da maneira pela qual elas s�� vistas porque elas n�� s�� deficientes. Voc??tratado de maneira muito pior [no primeiro caso].
P: E a linguagem? Que termos devem ser usados, e que termos devem ser evitados? Parece que a melhor norma ?falar das pessoas que possuem uma determinada defici��cia, como "John Smith, que ?cego."
R: Se isso for relevante. Voc?n�� ?a sua defici��cia - esta ?a abordagem subjacente. Voc?deve colocar a defici��cia no contexto apropriado.
P: Algu�� me disse que os ��icos impedimentos para o progresso das pessoas com defici��cias s�� as perguntas que n�� s�� feitas ou os pedidos que n�� s�� feitos. Ser?que ?justo dizer isso - que voc?n�� pode progredir se ningu�� souber que existe um problema?
R: ?verdade. Mas o outro lado da quest�� ?que uma coisa pode se encontrar dispon��el, mas pode ser cara demais ou pouco pr��ica para ser adquirida somente para ser usada por um ser humano. Eu acho que n��, nos Estados Unidos, temos esta capacidade incr��el de resolver problemas. Estamos come��ndo a usar as nossas tecnologias para resolver problemas humanos de uma maneira melhor. Estamos vivendo uma ��oca incrivelmente excitante. No entanto, �� vezes as solu��es simplesmente s�� caras demais. Por outro lado, uma caracter��tica maravilhosa que os americanos possuem ?a criatividade. Vinte ou vinte e cinco anos atr��, n�� t��hamos computadores nas nossas mesas. Pense um pouco nas aplica��es humanas dessas coisas. ?impressionante pensar no que podemos criar. E para as pessoas com defici��cias, os computadores foram um grande instrumento, no sentido de igualar as condi��es em que elas competem. Al�� disso, pens��amos que ser empreendedor era o resultado da discrimina��o. Era uma conseq��ncia da defici��cia. Voc?abria uma oficina para cadeiras de rodas na sua garagem porque n�� conseguia arrumar um emprego. Agora as ind��trias caseiras e as empresas que funcionam nas resid��cias dos seus propriet��ios s��, sem d��ida nenhuma, os neg��ios do momento.
P: Fale sobre a sua perspectiva pessoal no que diz respeito ?��oca de mudan��s nos setores p��lico e privado.
R: A vida ?t�� melhor para muitos de n��, e eu acho que isso acontece, em parte, porque n�� come��mos com o ambiente f��ico em mente, e o teste mental era o seguinte: ser?que uma pessoa numa cadeira de rodas consegue chegar aqui? Era uma coisa que pod��mos tocar e modificar, e as pessoas conseguiam entender esse processo facilmente. Foi um bom ponto de partida - como deveria ter sido - porque ele criou a abordagem plural��tica da acessibilidade, no sentido de estender a utiliza��o das estruturas existentes para incluir um n��ero maior de pessoas. Esse foi um princ��io muito importante, e ele ocorre em outras ��eas tamb��. Mas ele n�� funciona nas circunst��cias em que voc?tem pol��icas e procedimentos que ainda excluem as pessoas com defici��cias. A assist��cia m��ica ?um exemplo bem direto disso. A quest�� j?n�� ?a acessibilidade; no passado o ambiente f��ico era uma barreira. Hoje, as maiores barreiras s�� quest��s de pol��ica, incluindo a assist��cia m��ica, que mant�� as pessoas com defici��cias isoladas. ?sempre a quest�� do equil��rio dos recursos versus os direitos das pessoas. Quanto custa criar o acesso?
P: Em outras palavras, adapta��o versus dificuldades excessivas.
R: Exatamente. Mas quando tratamos da quest�� do ponto de vista de defesa de id��as, dizemos, qual ?o pre�� dos direitos civis? Sempre existe um pre��. Mas o que nos deixa frustrados ?que temos t�� pouco poder para exigir acesso irrestrito - o direito ?assist��cia m��ica b��ica, por exemplo. N�� n�� somos suficientemente organizados.
P: H?pouco est��amos falando sobre o treinamento referente ?conscientiza��o da sensibilidade. De que forma, no sentido pr��ico, as atitudes negativas s�� confrontadas?
R: A ess��cia da VSA [http://www.vsarts.org] ?que n�� somos capazes de demonstrar que voc?pode ser leg��imo artista com uma defici��cia, exercendo quase qualquer papel. A arte derruba estere��ipos e barreiras e cria oportunidades maravilhosas. O nosso caminho para uma qualidade de vida melhor passa pela arte e pela cultura; o caminho de outra organiza��o pode ser o emprego e a habita��o.
P: O senhor diria que a sociedade americana hoje, como um todo, est?mais consciente, mais generosa, tem mais considera��o...
R: Mais receptiva? Sim. Eu diria que fizemos coisas maravilhosas pelas pessoas portadoras de defici��cias f��icas, mas ainda temos um longo caminho a percorrer no que se refere �� pessoas com defici��cias cognitivas. Este ?um dos nossos verdadeiros desafios. Desenvolvemos uma sensibilidade no que se refere �� pessoas que, fisicamente n�� conseguem se mover muito bem, e tentamos acomod?las o melhor poss��el na nossa sociedade. Mas isso n�� acontece com as pessoas que possuem uma defici��cia psicol��ica ou mental, ou que tem problemas relacionados ?fala ou ?comunica��o. As pessoas partem de premissas terr��eis, tendo como base as limita��es de fala de um indiv��uo.
P: Fale sobre os mitos a respeito das pessoas com defici��cias - ou a respeito das pr��rias defici��cias.
R: Eu j?mencionei o mito mais significativo - o mito de que se a defici��cia ?associada ?comunica��o imediatamente parte-se da premissa que o problema ?relacionado com o quociente de intelig��cia da pessoa. H?tamb�� a id��a de que se voc??cego voc?tamb�� ?surdo. Quando eu falo, eu tenho uma tend��cia a explorar os mitos sob o ponto de vista do humor.
P: Mudando de assunto, n�� ?verdade que os processos referentes ?ADA est�� se acumulando em grandes quantidades nos tribunais, ? De modo geral a lei est?sendo cumprida.
R: ?verdade. A maior parte das pessoas quer agir corretamente. Elas n�� querem tentar descumprir a lei intencionalmente, ou ignorar as pessoas com defici��cias. Eu acho que a maior parte da discrimina��o associada ?defici��cia n�� ?intencional. As pessoas simplesmente n�� sabem como lidar com certas situa��es. Uma pessoa da ��ea de recursos humanos tenta atingir uma posi��o de equil��rio no que se refere aos interesses da empresa enquanto tenta atender, na medida do poss��el, �� necessidade de um indiv��uo. A certa altura dos acontecimentos, voc?vai passar por um crivo para ver se o custo ?alto demais. E as decis��s de pol��ica s�� tomadas tendo em vista os precedentes. Portanto os empregados da ��ea de recursos humanos e os supervisores enfrentam um verdadeiro desafio: eles t�� que tomar decis��s justas, cuidadosamente, caso a caso.
P: Outro mito ?que as pessoas com defici��cias preferem ficar separadas, sozinhas, com programas e servi��s especiais.
R: Certo. Eu n�� quero viver em um ambiente separado. No entanto, algumas pessoas com defici��cias podem ter crescido e trabalhado em locais de trabalho isolados. A possibilidade da inclus�� as assusta. Se elas preferirem ficar em um ambiente segregado, elas devem ter essa op��o.
P: O atingimento das metas das pessoas com defici��cias tem se manifestado de muitas maneiras - desde cart��s de boas-vindas e placas de sinaliza��o em museus em Braille, espet��ulos com tradu��o simult��ea em linguagem de sinais para deficientes auditivos, at?a incorpora��o de pessoas com defici��cias �� artes e aos esportes. O senhor pode indicar mais alguns - como guias rebaixadas em cada esquina para auxiliar as pessoas que usam cadeiras de rodas?
R: Bem voc?mencionou um grande n��ero de exemplos. Berkeley, na Calif��nia, e Washington, D.C., s�� um para��o no que diz respeito ao acesso para deficientes. A comunidade empresarial est?come��ndo a perceber que existe um mercado significativo de pessoas com defici��cias; anteriormente ningu�� se dirigia a essas pessoas como um grupo, e agora as empresas est�� come��ndo a fazer pe��s publicit��ias usando pessoas com defici��cias. Essas empresas est�� come��ndo a nos atrair. As primeiras que fizerem isso, e que o fizerem bem, com bom gosto, ser�� as empresas �� quais daremos prefer��cia em nossos neg��ios e compras. Na ��ea de participa��o em organiza��es, descobriu-se que para se atrair novos membros ?conveniente anunciar pe��s com tradu��o em linguagem de sinais ou descri��es em ��dio Essa iniciativa trar?um novo grupo de pessoas para a organiza��o.
P: Como o senhor passou a se dedicar ?VSA?
R: Recebi um convite. Eu n�� sabia muita coisa sobre a organiza��o, mas quanto mais eu procurava saber, mais eu percebia que poderia aprender muita coisa a partir da minha experi��cia aqui. Isso, para mim, era uma coisa muito atraente, era uma ��ea da minha vida que eu n�� havia desenvolvido. Aprendi muita coisa a partir do meu trabalho nas artes. Acho que ?uma vantagem a mais, para as pessoas com defici��cias, ter uma atividade no mundo art��tico, porque ?uma maneira t�� eficaz de se comunicar. Muitos deficientes foram exclu��os dos programas de arte das suas escolas secund��ias e faculdades porque as pessoas n�� sabiam como inclu?las. A arte ?uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento da auto-estima, da auto-confian��, e para que a pessoa aprenda a se expressar. A arte d?�� pessoas com defici��cias a oportunidade de ter um papel no mundo atual.
P: Com dezenas de se��es da VSA no mundo inteiro, parece que h?uma consci��cia, em n��el global, de como a arte pode trazer benef��ios para as pessoas com defici��cias.
R: Exatamente. Eu realmente penso que a arte ?uma l��gua universal, ultrapassando os limites entre as culturas e as gera��es, unindo a mente e o esp��ito, que ?uma coisa que praticamos muito aqui.
P: O que o senhor aprendeu, nos seus contatos com outros pa��es, sobre o status das pessoas com defici��cias no mundo inteiro?
R: Coisas incr��eis est�� acontecendo. Vejo os relat��ios anuais escritos das afiliadas, e fico perplexo com as coisas que leio. Mas fico realmente satisfeito quando vejo fitas de v��eo ou fotos, ou quando visito afiliadas em v��ias partes do mundo. Na Irlanda, existe um excelente programa de dramaturgia para pessoas com defici��cias. Na verdade o programa ?t�� bom que um grupo de atores e dramaturgos premiados comparecer?ao nosso festival internacional em Los Angeles, no final de maio. Na Ar��ia Saudita, existe uma escola fant��tica que atende milhares de crian��s com graves defici��cias, uma escola ultramoderna com professores que usam as artes como a mola-mestra do curr��ulo. No Jap��, h?uma oficina onde pessoas portadoras de defici��cias graves tecem produtos comercialmente vi��eis, que s�� vendidos no mundo inteiro. Esses s�� alguns exemplos. Portanto, temos muito o que aprender com os nossos parceiros e amigos internacionais.
P: Resumindo, ent��, o senhor est?satisfeito em rela��o ao rumo que a nossa sociedade est?tomando com rela��o �� pessoas com defici��cias?
R: Vou roubar uma palavra de um amigo: "O verdadeiro defensor de id��as nunca fica satisfeito com o status quo."
Sociedade e Valores dos
EUA
Revista Eletr��ica da USIA, Vol. 4, N?1, Janeiro de 1999