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Q U E S T ¡¦ E S G L O B A I S População no Novo Mil¡¦io |
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A POPULAÇÃO MUNDIAL: UMA DAS PRINCIPAIS QUEST¡¦S NO NOVO MIL¡¦IO Carl Haub
A população mundial chegar¡¦¡¦casa dos 6 bilh¡¦s no pr¡¦imo ano. Apenas 12 anos se passaram desde quando chegamos as 5 bilh¡¦s, em 1987. Este fato, por si s¡¦ serve para nos lembrar de que a explos¡¦ contempor¡¦ea da população mundial est¡¦longe de chegar ao fim. Como est¡¦a situação da população mundial e que expectativa razo¡¦el podemos ter para o futuro? Para pensarmos na primeira pergunta, temos que recuar um pouco no tempo, at¡¦1960, quando ningu¡¦ duvidava de que população do mundo estava, de fato, explodindo. Em 1960, a população global havia acabado de chegar a 3 bilh¡¦s. O acr¡¦cimo do terceiro bilh¡¦ havia ocorrido em um tempo extraordinariamente curto, somente 30 anos. O cl¡¦sico livro de Paul Ehrlich, "The Population Bomb" [A Bomba Populacional] apareceu em 1968, e j¡¦no in¡¦io dizia que a batalha para se alimentar toda a humanidade havia sido perdida. Atualmente n¡¦ est¡¦em voga apresentar qualquer tipo de defesa para Ehrlich e nem para aqueles que s¡¦ considerados as Cassandras do passado, mas talvez seja ¡¦il fazer uma retrospectiva e reconsiderar. O aviso de Ehrlich ajudou a dar o tom da ¡¦oca. Tais preocupações eram justificadas no contexto da ¡¦oca. Na d¡¦ada de sessenta, a população mundial estava crescendo no ritmo mais r¡¦ido da sua hist¡¦ia. A população nos pa¡¦es em desenvolvimento estava crescendo ¡¦impressionante taxa de 2,5 por ano, e esses pa¡¦es tinham mais de 70 por cento da população total do planeta. Nesse ritmo, os n¡¦eros dobrariam a cada 27 anos. Isso se tornava ainda mais assustador quando perceb¡¦mos que, do in¡¦io dos tempos at¡¦1800, a população apenas chegou ao primeiro bilh¡¦, e o segundo bilh¡¦ foi alcan¡¦do em 1930. Por que essa explos¡¦ ocorreu? Os ¡¦dices de mortalidade nos pa¡¦es em desenvolvimento tiveram uma queda marcante ap¡¦ a Segunda Guerra Mundial. Campanhas de sa¡¦e p¡¦lica e de vacinação reduziram espetacularmente a doen¡¦ e a mortalidade infantil. Nos pa¡¦es desenvolvidos, esses decl¡¦ios na mortalidade haviam levado s¡¦ulos para ocorrer, ¡¦medida que a pr¡¦ria sociedade gradualmente se transformava, tornando-se mais urbanizada e menos dependente de grandes fam¡¦ias. Como resultado, as taxas de nascimento e mortalidade tendiam a decrescer proporcionalmente, e as taxas de crescimento populacional nunca atingiram o n¡¦el que atingiriam mais tarde, nos pa¡¦es em desenvolvimento. Nesses ¡¦timos, os ¡¦dices de mortalidade diminu¡¦am t¡¦ rapidamente que a sociedade teve pouco tempo ou motivo para mudar o seu desejo de ter fam¡¦ias mais numerosas. Ehrlich e outros que avisaram sobre as conseqüências do crescimento sem controle, agora s¡¦ criticados devido ¡¦ suas noções alarmistas. Mas os cr¡¦icos freq¡¦ntemente n¡¦ conseguem enxergar o ¡¦ago da quest¡¦. Na d¡¦ada de sessenta, as mulheres nos pa¡¦es em desenvolvimento estavam tendo, em m¡¦ia, seis filhos, e a expectativa de vida estava crescendo a um ritmo nunca antes vislumbrado Os m¡¦odos modernos de planejamento familiar estavam apenas come¡¦ndo a se tornar conhecidos nos pa¡¦es industrializados, e a possibilidade de eles se tornarem dispon¡¦eis nas sociedades agr¡¦olas, tradicionais, dos pa¡¦es em desenvolvimento era, de fato, muito remota. Foi precisamente devido a essa preocupação com o r¡¦ido crescimento que os pa¡¦es come¡¦ram a adotar pol¡¦icas nacionais para lidar com o r¡¦ido crescimento populacional. Agora temos uma nova perspectiva. Por a culpa em Ehrlich ¡¦a mesma coisa que criticar algu¡¦ por gritar "Fogo!" alto demais. Atualmente, a situação demogr¡¦ica global ¡¦mais complexa do que 30 anos atr¡¦ quando todos os pa¡¦es em desenvolvimento tinham populações que estavam se multiplicando rapidamente. A maioria desses pa¡¦es j¡¦adotou pol¡¦icas de população que identificam as taxas de crescimento populacional como sendo altas demais. Agora, o planejamento familiar j¡¦se encontra dispon¡¦el na maior parte dos pa¡¦es em desenvolvimento. Embora a população ainda esteja crescendo, a taxa de fertilidade - o n¡¦ero de filhos que uma mulher tem no decorrer da sua vida - j¡¦diminuiu. Desde 1950, o crescimento populacional mais r¡¦ido vem ocorrendo na ¡¦rica, ¡¦ia (com exceção da China) e na Am¡¦ica Latina. Essa situação prevalece, no momento. Se a taxa de natalidade nos pa¡¦es em desenvolvimento tivesse permanecido inalterada desde 1950, a população desses pa¡¦es, hoje, chegaria a 7 bilh¡¦s, e estaria crescendo a uma taxa que continuaria a dobrar as suas populações em menos de 20 anos! Ao chegarmos ao ano 2020, esse n¡¦ero chegaria a 15 bilh¡¦s, e menos de 20 anos depois, 30 bilh¡¦s. Essa projeção, naturalmente, parte da premissa de que tal crescimento de população nunca antes imaginado n¡¦ teria causado s¡¦ias crises no abastecimento de alimentos, a disseminação de doen¡¦s, e in¡¦eras calamidades ambientais. Em outras palavras, justamente o que mais preocupava Ehrlich. Hoje, n¡¦ sabemos algumas coisas que os autores dos livros da d¡¦ada de sessenta n¡¦ sabiam. Os casais nos pa¡¦es em desenvolvimento queriam limitar o tamanho das suas fam¡¦ias, e freq¡¦ntemente faziam isso sem ter acesso a m¡¦odos eficientes de controle de natalidade. Isso, naturalmente n¡¦ acontecia em todos os lugares. Em alguns pa¡¦es, o planejamento familiar encontrava um p¡¦lico-alvo mais receptivo do que em outros. De qualquer maneira, embora o uso do planejamento familiar seja muito mais comum nos pa¡¦es cujas economias est¡¦ se desenvolvendo mais rapidamente, ele tamb¡¦ est¡¦em evid¡¦cia nas ¡¦eas rurais, tradicionais, onde sua aceitação nem sempre era esperada. Isso mudou a nossa percepção do crescimento futuro da população mundial, que agora inclui uma possibilidade significativa: o fim, de fato, do crescimento da população mundial ao se chegar a algum n¡¦ero remoto e desconhecido. O n¡¦ero definitivo depender¡¦inteiramente da taxa de natalidade nos pa¡¦es em desenvolvimento. Nenhuma quest¡¦ ¡¦mais importante do que a fertilidade para os dem¡¦rafos que fazem as projeções de população mundial. A discuss¡¦ se concentra no t¡¦ico da "fertilidade no n¡¦el de reposição". Trata-se, simplesmente, de um tamanho de fam¡¦ia de aproximadamente dois filhos por mulher, de modo que cada casal apenas "se reponha", e no final, o crescimento da população mundial chega ao fim. Em algumas partes do mundo, isso pode parecer um sonho distante, mas pelo menos n¡¦ sabemos que isso ¡¦poss¡¦el. O crescimento populacional zero nos pa¡¦es em desenvolvimento s¡¦ser¡¦poss¡¦el se eles chegarem ao n¡¦el de reposição. Se isso n¡¦ acontecer, as populações continuar¡¦ a crescer. Embora n¡¦ possamos, no momento, saber qual ser¡¦a população mundial no futuro, podemos fazer uma projeção da ordem de grandeza da população em v¡¦ias situações diferentes. Isso ¡¦o que a Divis¡¦ de População das Nações Unidas faz a cada dois anos, nas suas projeções de população. A ONU emite uma s¡¦ie de projeções que ela chama de Variantes Alta, M¡¦ia e Baixa. Elas projetam tr¡¦ cen¡¦ios muito diferentes para a população global. As grandes diferen¡¦s se devem apenas ¡¦ premissas a respeito da fertilidade, no futuro, nos pa¡¦es em desenvolvimento. Isso resulta do fato de que virtualmente todo - 98 por cento - do crescimento populacional no mundo, atualmente, ocorre nesses pa¡¦es. A fertilidade em quase todos os pa¡¦es desenvolvidos, atualmente, est¡¦abaixo do n¡¦el de reposição e a maioria dos pa¡¦es europeus se encaminha para um decl¡¦io na população. Na sua Variante M¡¦ia, a ONU parte da premissa geral de que a taxa de fertilidade total (TFR) para todos os pa¡¦es convergir¡¦para o n¡¦el de reposição de 2,1 crian¡¦s por mulher at¡¦a metade do pr¡¦imo s¡¦ulo. Nessas circunst¡¦cias, a população mundial chegaria a um total de 11 bilh¡¦s e ent¡¦ se estabilizaria. A import¡¦cia estat¡¦tica da fam¡¦ia de dois filhos pode ser vista facilmente na Variante Alta da ONU. Se os casais, no mundo inteiro, preferirem ter uma fam¡¦ia um pouco mais numerosa, 2,6 filhos, a população mundial atingiria uma dimens¡¦ maior, e n¡¦ seria s¡¦um pouco maior. Ela incharia para 27 bilh¡¦s de pessoas em 2050 e continuaria a crescer. A Variante Baixa, por outro lado, parte da premissa de que os casais, no mundo inteiro, ter¡¦ somente 1,6 filhos, o que coincide com o n¡¦el atual de TFR na Europa. A tend¡¦cia baixa chega ao seu ponto m¡¦imo em 8 bilh¡¦s e em seguida come¡¦ a decrescer, pois n¡¦ est¡¦havendo reposição dos casais. Esses cen¡¦ios muito diferentes mostram como s¡¦ sens¡¦eis os n¡¦eros projetados da população para qualquer que seja o rumo que a taxa de fertilidade tomar. Qualquer que seja o cen¡¦io escolhido, ¡¦essencial ter em mente que todos eles assumem que as taxas de natalidade cair¡¦ continuamente a n¡¦eis que s¡¦, na verdade, n¡¦eis hist¡¦icos muito baixos. A realidade, naturalmente, ser¡¦diferente. Tendo como base a experi¡¦cia atual e as tend¡¦cias, podemos esperar que as taxas de fertilidade come¡¦r¡¦ a declinar lentamente em alguns pa¡¦es, a declinar por algum tempo e a se estabilizar em outros, e a diminuir suavemente em um terceiro grupo de pa¡¦es. Temos exemplos de todas essas tr¡¦ tend¡¦cias. Na Tail¡¦dia, por exemplo, a fertilidade caiu para menos de dois filhos por casal, facilitada por um bem administrado programa nacional de planejamento familiar. Um padr¡¦ similar ¡¦observado na Cor¡¦a do Sul e em Taiwan. Na Am¡¦ica Latina, no entanto, a fertilidade apresenta uma forte tend¡¦cia a diminuir por algum tempo, mas depois passa para aproximadamente tr¡¦ filhos por mulher na Argentina, Col¡¦bia e Jamaica. Na ¡¦rica, o decl¡¦io da fertilidade apenas come¡¦u em alguns pa¡¦es, mas em muitos outros, isso n¡¦ aconteceu. A situação se torna ainda mais complexa quando a examinamos em n¡¦el subnacional. Na ¡¦dia, por exemplo, o decl¡¦io da TFR, desde a d¡¦ada de setenta, de 5,5 filhos por mulher para 3,5 hoje, tem decorrido, em grande parte, de um decl¡¦io na TFR nos estados do sul, que s¡¦ mais pr¡¦peros e apresentam um n¡¦el mais elevado de escolaridade. O decl¡¦io da fertilidade na ¡¦dia, no futuro, depender¡¦muito do que acontece nos grandes estados do norte, onde os n¡¦eis de analfabetismo s¡¦ muito mais elevados. O estado de Uttar Pradesh, por exemplo, com 150 milh¡¦s de pessoas (o equivalente ao sexto pa¡¦ mais populoso do mundo) e uma TFR de cinco filhos por mulher, se destaca como um grande desafio. Este s¡¦ulo provavelmente ser¡¦lembrado pelo seu tremendo surto de crescimento populacional. No pr¡¦imo s¡¦ulo, provavelmente ocorrer¡¦ mudan¡¦s sociais e demogr¡¦icas que superar¡¦ tudo o que aconteceu nos ¡¦timos 100 anos. O equil¡¦rio da população mundial pender¡¦ de maneira significativa, na direção dos atuais pa¡¦es em desenvolvimento. Talvez menos de 5 por cento da população mundial estar¡¦vivendo na Europa e na Am¡¦ica do Norte. Isso quase certamente significar¡¦um mundo que, social e economicamente, ser¡¦muito diferente do mundo atual. Ultimamente tem havido uma tend¡¦cia a considerar o crescimento populacional como uma preocupação do passado, ou como uma not¡¦ia de ontem. Mas mesmo se olharmos de maneira superficial para os n¡¦eros, veremos que o crescimento populacional pode significar uma not¡¦ia mais importante no pr¡¦imo s¡¦ulo do que no atual. ----------
Carl Haub ¡¦o dem¡¦rafo s¡¦ior do Escrit¡¦io de Refer¡¦cia Populacional [Population Reference Bureau], uma organização n¡¦-governamental, e co-autor do relat¡¦io anual da organização, "World Population Data Sheet." [Relat¡¦io Anual de População Mundial]. As conclus¡¦s do relat¡¦io de 1998 podem ser encontradas na Internet, no seguinte endere¡¦: http://www.prb.org/prb/info/98wpds.htm.
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