A PERCEP巴O E A COMPREENS・ DO P・LICO, NO QUE SE REFERE ?BIOTECNOLOGIA AGR・OLA

Thomas J. Hoban, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia
[Department of Sociology and Anthropology] da Universidade Estadual da
Carolina do Norte [North Carolina State University]

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    A percep艫o e a compreens・ dos consumidores, no que se refere ?biotecnologia agr・ola, t・ sido fortemente influenciadas pelo tipo de informa艫o fornecida pela imprensa, pela confian・ nas salvaguardas governamentais e pelas prefer・cias culturais, diz Thomas J. Hoban. No entanto, as pesquisas indicam que os consumidores de partes diferentes do mundo t・ percep苺es e compreens・ muito diferentes no que se refere ?biotecnologia agr・ola. Neste artigo, Hoban, que estudou essa quest・ no decorrer da ・tima d・ada, comenta as percep苺es dos consumidores a respeito da biotecnologia na produ艫o de alimentos e apresenta uma orienta艫o para que se possa atender ・ necessidades de informa苺es dos consumidores.


    Os primeiros produtos agr・olas da biotecnologia j?chegaram aos mercados mundiais. Esses produtos tiveram pouca receptividade em algumas partes do mundo. Mas apesar de algumas manchetes sensacionalistas nos jornais, os mercados da Am・ica do Norte at?agora, tem se mantido calmos com a chegada, ・ lojas, dos alimentos que cont・ ingredientes desenvolvidos por meio da biotecnologia. Ficou claro, a partir de uma an・ise das pesquisas realizadas entre os consumidores nos Estados Unidos, no Jap・ e na Europa, que as percep苺es dos consumidores a respeito dos alimentos origin・ios da biotecnologia s・ fortemente influenciadas pelo tipo de informa艫o, confian・ nos governos e prefer・cias culturais.

    Pontos de Vista Variados

    Em geral, os consumidores no mundo inteiro d・ muito valor aos testes na ・ea de gen・ica humana, ao desenvolvimento de novos medicamentos para combater doen・s e ao uso da biotecnologia para desenvolver novos tipos de produtos agr・olas resistentes aos insetos. H?menor probabilidade de os consumidores aceitarem o uso da biotecnologia com animais (ainda que seja para melhorar a sa・e dos seres humanos), e eles parecem estar menos dispostos a aceitar produtos aliment・ios desenvolvidos com o uso da biotecnologia, comparados ao cultivo de produtos agr・olas, que alguns consumidores nem ao menos associam diretamente aos alimentos. As aplica苺es mais aceit・eis s・ aquelas que oferecem um benef・io claro para o consumidor, assim como aquelas que segundo a percep艫o das pessoas, s・ ・icas e seguras.

    No entanto, as atitudes do p・lico em rela艫o ?biotecnologia agr・ola variam consideravelmente entre os pa・es. Os consumidores do Canad? Finl・dia, It・ia, Jap・, Holanda, Portugal e Estados Unidos t・ uma atitude mais positiva em rela艫o ?biotecnologia do que os da maioria dos outros pa・es. O apoio ?biotecnologia ?muito menor na ・stria, Dinamarca, Alemanha e Su・ia.

    Dois pa・es -- o Reino Unido e a Fran・ -- tinham, no passado, uma atitude muito positiva em rela艫o ?biotecnologia, mas se tornaram mais hostis neste ・timo ano. O Reino Unido passou a ter uma atitude mais negativa por v・ios motivos, incluindo as repercuss・s da doen・ da vaca louca, os coment・ios contr・ios ?biotecnologia feitos pelo Pr・cipe Charles, o p・ico por parte do com・cio varejista de alimentos e uma eficaz rede de grupos de ativistas. A Fran・ passou a adotar uma posi艫o mais negativa, em parte devido ?oposi艫o, por parte dos fazendeiros franceses, ・ importa苺es de gr・s dos Estados Unidos e a uma oposi艫o cultural mais abrangente, dos franceses, ao que eles chamam de globaliza艫o (isto ? americaniza艫o) do fornecimento de alimentos.

    As pesquisas nos Estados Unidos (algumas das quais s・ bem recentes, tendo sido feitas na primavera de 1999) mostram sistematicamente que dois ter・s a tr・ quartos dos consumidores americanos t・ uma atitude positiva em rela艫o ?biotecnologia, e aproximadamente tr・ quartos t・ demonstrado, consistentemente, uma disposi艫o no sentido de comprar produtos agr・olas protegidos contra insetos, desenvolvidos por meio da biotecnologia. Um dos motivos dessa disposi艫o ?que esses produtos exigem menor quantidade de pesticidas qu・icos. O apoio ?maior entre os homens e entre as pessoas com um n・el de escolaridade mais alto.

    Isso n・ significa que os consumidores n・ fazem perguntas. Os consumidores levantaram uma s・ie de quest・s a respeito da biotecnologia agr・ola, especialmente sobre a possibilidade que essa tecnologia tem de envolver, de alguma forma, riscos a longo prazo ou inesperados. Os ambientalistas freq・ntemente concentram suas aten苺es nos poss・eis impactos ecol・icos que possam resultar do uso da biotecnologia. Embora eles levantem quest・s importantes, tais quest・s n・ representam uma prioridade na mente do consumidor m・io. Al・ disso, os consumidores geralmente associam as quest・s ・icas ?gen・ica humana ou animal, em vez das plantas.

    Um P・lico Informado?

    As pesquisas demonstram que h?um alto n・el de conscientiza艫o a respeito da biotecnologia na ・stria, Dinamarca, Luxemburgo e Su・ia. Mas trata-se de exce苺es. Nos Estados Unidos, as pesquisas desde 1992 mostram que somente um ter・ dos consumidores j?ouviram falar ou j?leram alguma coisa sobre biotecnologia -- exce艫o feita a um curto per・do em 1997, quando a imprensa dedicou mais aten艫o ?clonagem de uma ovelha - nesse per・do o ・dice de conscientiza艫o subiu em quase 50 por cento. Somente cerca de um ter・ dos consumidores japoneses revelaram ter algum conhecimento a respeito de biotecnologia em 1995 e 1998. O ・dice de conscientiza艫o na Fran・ e no Reino Unido (que foi avaliado dois anos atr・) era compar・el ao ・dice revelado nos Estados Unidos, mas ele se elevou por motivos que j?discutimos anteriormente.

    A maior parte das pessoas obt・ informa苺es a respeito da biotecnologia por meio da cobertura da m・ia. Se a m・ia n・ cobrir um determinado acontecimento, o p・lico tende a ignorar a quest・. O tom da informa艫o na m・ia tem um importante impacto sobre as percep苺es dos consumidores. At?agora, a cobertura da imprensa nos Estados Unidos tem revelado uma tend・cia a ser positiva e equilibrada (o que ajuda a explicar os ・dices relativamente altos de aceita艫o da biotecnologia).

    A cobertura da m・ia na Uni・ Europ・a ?muito diferente. Na verdade, a cobertura da m・ia no Reino Unido assumiu as caracter・ticas dos jornais sensacionalistas. A imprensa brit・ica tende a usar termos sensacionalistas como "comida Frankenstein". A imprensa brit・ica tamb・ tende a divulgar, rapidamente, quaisquer alega苺es negativas, mesmo quando o consenso cient・ico desmente a acusa艫o (como ocorreu no caso da controv・sia a respeito da seguran・ da batata protegida contra insetos). Isso explica, em parte, a atitude negativa dos consumidores e da ind・tria de produtos aliment・ios no Reino Unido.

    Outra coisa que contribui para a desinforma艫o no campo da biotecnologia ?o baixo n・el de conhecimento, na maioria dos pa・es, a respeito das ci・cias agr・olas e biol・icas b・icas. Essa falta de compreens・ gera preocupa艫o, especialmente quando aliada ?cobertura negativa da m・ia. Al・ disso, parece haver uma falta de compreens・ a respeito do cultivo de plantas tradicionais. Os pa・es com os mais elevados n・eis de conhecimento s・ o Canad? a Holanda, a Su・ia e os Estados Unidos. Os pa・es onde se demonstra o ・dice mais baixo de conhecimento incluem a ・stria, a Gr・ia, a Irlanda, Portugal e a Espanha. Os resultados das pesquisas indicam que quando se fornece informa苺es sobre os fatos, o ・dice de aceita艫o por parte dos consumidores cresce (pelo menos nos Estados Unidos, no Canad?e no Jap・).

    No entanto, os estudos tamb・ demonstram que a fonte das informa苺es pode ser um fator importante nas prefer・cias dos consumidores, e que uma fonte na qual se confia, em um pa・, pode n・ ter nenhuma credibilidade em outro. Os consumidores americanos t・ a maior confian・ em especialistas independentes na ・ea de sa・e e ci・cias. Mais particularmente, os ・dices de aceita艫o crescem quando os consumidores americanos s・ informados de que grupos como a Associa艫o M・ica Americana [American Medical Association], a Administra艫o de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos [U.S. Food and Drug Administration] (FDA) e outros concluem que os alimentos origin・ios da biotecnologia s・ seguros. Os consumidores japoneses tamb・ t・ muita confian・ em fontes independentes de informa苺es cient・icas. Por outro lado, os consumidores europeus demonstram ter a maior confian・ em associa苺es de consumidores e grupos ambientalistas. A sua confian・ no governo e no segmento industrial ?muito menor do que na Am・ica do Norte.

    R・ulos para quem?

    As quest・s que apresentam os maiores desafios para a biotecnologia agr・ola envolvem os r・ulos. Em geral, os consumidores europeus t・ sido estimulados por ativistas dos grupos de consumidores para que eles exijam r・ulos que identifiquem os alimentos desenvolvidos por meio da biotecnologia. V・ios varejistas do ramo de alimentos (especialmente no Reino Unido) v・ tentando explorar as preocupa苺es do p・lico como um instrumento de marketing. A Europa tem pol・icas sobre r・ulos em vigor, mas at?agora ainda n・ conseguiu estabelecer regulamentos ou procedimentos vi・eis. Agora eles est・ ・ voltas com dif・eis quest・s de ordem t・nica como os m・odos que devem ser usados para identificar os tra・s de ingredientes derivados da biotecnologia. Eles tamb・ est・ tentando determinar a porcentagem de ingredientes nos alimentos industrializados que podem se originar da biotecnologia e ainda assim permitir que os alimentos sejam classificados como "isentos de biotecnologia".

    Para o consumidor americano, a Administra艫o de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA), um ・g・ governamental que se reporta ao Departamento de Sa・e e Servi・ Social dos Estados Unidos [U.S. Department of Health and Human Services], determinou que um produto aliment・io s?deve possuir um r・ulo que o classifica como produto de biotecnologia se tiver sido modificado de maneira significativa. A pol・ica da FDA, que conta com o apoio de mais de 75 por cento dos consumidores dos Estados Unidos, de acordo com duas pesquisas de ・bito nacional, garante a disponibilidade dos produtos e ao mesmo tempo proporciona, aos consumidores, informa苺es relevantes a respeito de seguran・ alimentar e mudan・ no conte・o nutricional.

    Al・ disso, grupos de estudo nos Estados Unidos, demonstraram, recentemente, que a reda艫o usada nos r・ulos tem um efeito significativo sobre a compreens・ e a aceita艫o da biotecnologia por parte dos consumidores. Muitos consumidores americanos j?est・ perplexos perante o n・el de detalhamento dos r・ulos dos produtos aliment・ios e na verdade n・ querem mais informa苺es que n・ possuam justifica艫o cient・ica. Os consumidores querem saber de que forma um produto mudou e se ele foi aprovado por um ・g・ governamental. Qualquer informa艫o apresentada no r・ulo precisa ser simples, relevante e clara.

    A elabora艫o dos r・ulos de alimentos industrializados apresenta v・ios desafios log・ticos e despesas para todos os elementos envolvidos no processo. Por exemplo, os consumidores dos Estados Unidos relatam que h?pouca necessidade de informa苺es no r・ulo de uma garrafa de ketchup que inclua tomates desenvolvidos pela biotecnologia, junto com tomates cultivados pelos m・odos tradicionais. Na pr・ica, a maioria das pessoas nem ao menos sabe que tipos diferentes de verduras ou frutas est・, atualmente, sendo misturados, durante o processamento. Al・ disso, os consumidores n・ est・ dispostos a pagar mais para que os produtos possuam r・ulos que indicam que o conte・o ?um produto da biotecnologia (especialmente quando essa informa艫o n・ tiver significado). Os consumidores querem ter op苺es significativas que sejam realmente diferentes. O nicho de mercado "org・ico" j?apresenta uma oportunidade vi・el para os consumidores que n・ querem consumir alimentos desenvolvidos pela biotecnologia, quaisquer que sejam as suas raz・s.

    Gora, para onde Vamos?

    A biotecnologia est?em uma encruzilhada em termos de aceita艫o pelo p・lico. As provid・cias e declara苺es do setor industrial, do governo e dos cientistas no decorrer do pr・imo ano ter・ uma grande influ・cia sobre a viabilidade a longo prazo da iniciativa da biotecnologia agr・ola. Se n・ houver um comprometimento significativo com a conscientiza艫o dos consumidores e com as op苺es baseadas em informa苺es, a oposi艫o continuar?a crescer. Tais esfor・s devem ser baseados na pesquisa cont・ua no que se refere ao conhecimento e ・ atitudes do p・lico e dos formadores de opini・. Partes diferentes do mundo exigem abordagens diferentes.

    Os resultados das pesquisas at?agora sugerem que a biotecnologia n・ deve se tornar uma quest・ muito importante para a maior parte dos consumidores norte-americanos. A maioria dos consumidores dos Estados Unidos (bem como muitos outros no mundo inteiro) est・ adotando uma atitude otimista por・ cautelosa no que diz respeito aos benef・ios da biotecnologia. Eles aceitar・ os produtos se neles encontrarem um benef・io para si mesmos ou para a sociedade e se o pre・ for justo. Na verdade, o que estamos descobrindo ?que a rea艫o do consumidor aos alimentos desenvolvidos por meio da biotecnologia ?basicamente a mesma que se v?em rela艫o a quaisquer outros alimentos. Sabor, nutri艫o, pre・, seguran・ e conveni・cia s・ as principais considera苺es. A maneira pela qual as sementes e os ingredientes dos alimentos s・ produzidos somente ser?relevante para um pequeno grupo de consumidores dedicados aos produtos "org・icos".

    Nos pa・es em que os consumidores t・ uma atitude mais negativa em rela艫o ?biotecnologia -- Alemanha, ・stria, Su・ia e Dinamarca -- a cobertura da m・ia e a oposi艫o de ativistas tem sido mais pronunciada. Nesses quatro pa・es, a discuss・ dos benef・ios da biotecnologia tem sido, em geral, ignorada, ao passo que os riscos em potencial t・ sido real・dos. Valores sociais b・icos e cren・s culturais tamb・ explicam boa parte das diferen・s entre as rea苺es encontradas nos pa・es. Esses valores e cren・s n・ s・, necessariamente, suscept・eis ?influ・cia de esfor・s educacionais.

    H?tamb・ uma s・ie de diferen・s culturais fundamentais. Por exemplo, as atitudes dos consumidores a respeito da biotecnologia t・ uma estreita rela艫o com as suas cren・s, em geral, a respeito da ci・cia, da tecnologia e dos alimentos. Os consumidores europeus tendem a considerar as fazendas como ・eas p・licas naturais abertas ?visita艫o nos fins de semana. As fazendas, nos Estados Unidos, tendem a se concentrar na ・ea central do pa・, afastadas das grandes cidades. Al・ disso, nos Estados Unidos, sempre houve muito apoio e aprecia艫o, por parte do p・lico, no que se refere a novas tecnologias. Tal apoio n・ tem sido t・ veemente em certas partes da Europa. Alguns europeus tendem a tratar seus alimentos com uma rever・cia quase espiritual, o que ?muito diferente da percep艫o dos americanos, para os quais o alimento ?um combust・el. Essas quest・s, al・ de outras, merecem ser alvo de muita aten艫o.

    Outro motivo para o apoio dado pelos Estados Unidos ?biotecnologia tem sido o compromisso, a longo prazo, com a conscientiza艫o dos formadores de opini・ e dos consumidores. Tem havido uma parceria sem precedentes entre o governo, o setor industrial, as universidades e outros grupos (como a Associa艫o Americana dos Diet・icos [American Dietetic Association]) no sentido de compreender e tratar das preocupa苺es do p・lico bem antes da distribui艫o dos produtos da biotecnologia agr・ola. H?uma necessidade cr・ica de renovar esse compromisso com a conscientiza艫o, a informa艫o e a pesquisa das ci・cias sociais.

    Nossa experi・cia nos Estados Unidos proporciona algumas diretrizes para um programa global de informa艫o e conscientiza艫o. Os consumidores precisam reconhecer os benef・ios existentes e as possibilidades futuras da biotecnologia. A oportunidade que a biotecnologia oferece, para se alimentar o mundo (e ao mesmo tempo para se proteger o meio ambiente) ser?um forte atrativo para muitos consumidores. Al・ disso, ?importante desenvolver a confian・ no governo e nos cientistas, para que eles sirvam aos interesses do p・lico. Para isso ?preciso que os fazendeiros, os cientistas, as autoridades governamentais e outros trabalhem em conjunto para assegurar que as decis・s dos consumidores sejam baseadas em informa苺es equilibradas.

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    Observa艫o: As opini・s apresentadas neste artigo n・ refletem, necessariamente, as opini・s ou as pol・icas do governo dos Estados Unidos.

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