DA REVOLUÇÃO VERDE ?REVOLUÇÃO DOS GENES

Ismail Serageldin, presidente do Grupo de Consultoria de Pesquisa Agr¡¦ola Internacional
[Consultative Group on International Agricultural Research] e
vice-presidente de programas especiais do Banco Mundial

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    Aproximadamente 40.000 pessoas morrem diariamente, no mundo, por motivos relacionados com a fome, diz Ismail Serageldin. A necessidade de alimentos para atender ?população mundial, que se encontra em expans¡¦, cresce mais rapidamente do que a capacidade que os produtores de alimentos t¡¦ de atender a essas necessidades. O crescimento na produção de alimentos ter?que ser o resultado de um melhor rendimento biol¡¦ico, em vez de expans¡¦ das ¡¦eas e mais irrigação. A transformação na agricultura, diz Serageldin, "ser?essencial para que se possa enfrentar esses desafios mundiais: reduzir a pobreza, alimentar a crescente população mundial e proteger o meio ambiente".


    Estima-se que a população mundial passar?da marca dos 8 bilh¡¦s em 2025 -- o que significa um crescimento de 2,5 bilh¡¦s em relação ao n¡¦el atual. Boa parte do crescimento, embora n¡¦ todo, ocorrer?nos pa¡¦es em desenvolvimento, e haver?um n¡¦ero muito maior de bocas para alimentar em circunst¡¦cias complexas.

    Norman Borlaug, ganhador do Pr¡¦io Nobel, e pai da Revolução Verde, calcula que "para atender ?necessidade projetada de alimentos, at?o ano 2025 o rendimento m¡¦io de todos os cereais ter?que ser 80 por cento mais alto do que o rendimento m¡¦io em 1990". Esses aumentos dever¡¦ resultar, principalmente, dos maiores rendimentos biol¡¦icos, e n¡¦ da expans¡¦ das ¡¦eas cultivadas ou de maior irrigação; o excesso de consumo e o desperd¡¦io nos pa¡¦es ricos e a press¡¦ populacional nos pa¡¦es pobres j?impuseram um perigoso fardo aos ecossistemas dos quais n¡¦ todos dependemos.

    Enquanto isso, a pobreza e a fome persistem no nosso mundo de fartura, apesar do enorme surto de produção e produtividade, das fant¡¦ticas mudan¡¦s criadas pela ci¡¦cia e pela tecnologia e das incr¡¦eis realizações registradas nos indicadores sociais por tantos habitantes do planeta. A capacidade de produção de alimentos ?abrangente e substancial, e mesmo assim milh¡¦s de pessoas s¡¦ demasiado pobres para atender ¡¦ suas necessidades b¡¦icas. Aproximadamente 40.000 pessoas por dia morrem por motivos relacionados com a fome.

    Enfrentando o Desafio Global da Agricultura

    A agricultura ?uma pe¡¦ essencial para que possamos administrar esses problemas no novo mil¡¦io. O crescimento da agricultura ?essencial para o crescimento na maior parte dos pa¡¦es em desenvolvimento. Muito poucos pa¡¦es de baixa renda conseguiram ter um crescimento r¡¦ido dos setores n¡¦ agr¡¦olas sem um r¡¦ido crescimento correspondente no setor agr¡¦ola. Por outro lado, a maior parte dos pa¡¦es em desenvolvimento que cresceram rapidamente durante a d¡¦ada de 80 tiveram um r¡¦ido crescimento agr¡¦ola nos anos anteriores. A agricultura, al¡¦ disso, ?a principal interface entre as pessoas e o meio ambiente.

    Portanto, a transformação na agricultura ser?essencial para que seja poss¡¦el enfrentar esses desafios globais: reduzir a pobreza, alimentar a crescente população mundial e proteger o meio ambiente. Essa transformação ter?que ocorrer no n¡¦el dos pequenos propriet¡¦ios rurais, para que os seus complexos sistemas de produção agr¡¦ola possam se tornar mais produtivos e eficientes na utilização de recursos.

    O desafio ?ao mesmo tempo t¡¦nico (pois requer o desenvolvimento de novos sistemas de produção de alta produtividade e compat¡¦eis com os requisitos de um ambiente sustent¡¦el) e pol¡¦ico (pois requer pol¡¦icas que n¡¦ discriminem as ¡¦eas rurais em geral nem a agricultura em particular), e ter?que ser enfrentado em um momento em que a atenção dedicada ao desenvolvimento agr¡¦ola e ao bem estar na ¡¦ea rural est?em decl¡¦io. Um aspecto essencial da resposta a esse desafio ?a utilização de todos os instrumentos do crescimento agr¡¦ola sustent¡¦el.

    A Função do CGIAR

    Uma responsabilidade muito grande cabe ao Grupo de Consultoria para a Pesquisa Agr¡¦ola Internacional [Consultative Group on International Agricultural Research] (CGIAR), a ¡¦ica organização do mundo cuja finalidade espec¡¦ica ?mobilizar o melhor da ci¡¦cia agr¡¦ola em benef¡¦io dos pobres e famintos do mundo. O CGIAR, criado em 1971, ?uma associação informal de 58 membros dos setores p¡¦lico e privado que patrocina 16 centros internacionais de pesquisa agr¡¦ola. Os Estados Unidos est¡¦ entre os membros fundadores do CGIAR. O pa¡¦ tem um importante papel na formulação das pol¡¦icas da organização.

    Os centros internacionais desenvolvem material avan¡¦do de criação para ser adotado e utilizado por sistemas nacionais de pesquisa agr¡¦ola (NARS) nos pa¡¦es em desenvolvimento. O CGIAR trabalha em conjunto com uma s¡¦ie de parceiros nos setores p¡¦lico e privado. Seus produtos de pesquisa s¡¦ propriedade p¡¦lica internacional, colocada incondicionalmente ?disposição de fazendeiros pobres, programas nacionais e outros usu¡¦ios.

    O CGIAR se encontra em uma situação ideal para tratar do pr¡¦imo e importante desafio que os cientistas da ¡¦ea agr¡¦ola precisar¡¦ enfrentar: a combinação da pesquisa convencional com o potencial da revolução gen¡¦ica. Assim como a Revolução Verde alimentou milh¡¦s de pessoas e serviu como base para a transformação econ¡¦ica, temos que nos assegurar de que a revolução dos genes nos leve a uma "revolução duplamente verde" na qual a maior produtividade e o gerenciamento dos recursos naturais possam encontrar um ponto de equil¡¦rio. Portanto, os pobres ter¡¦ a possibilidade de evoluir, deixando a pobreza para tr¡¦.

    A Promessa da Biotecnologia

    A revolução nas ci¡¦cias biol¡¦icas -- gen¡¦ica molecular, inform¡¦ica e pesquisa gen¡¦ica -- abriu in¡¦eras possibilidades. A promessa da biotecnologia como um instrumento de desenvolvimento est?na sua capacidade de melhorar a quantidade e a qualidade das plantas e dos animais de maneira r¡¦ida e eficaz. O tempo necess¡¦io para se identificar e combinar caracter¡¦ticas favor¡¦eis por meio da hibridação tradicional de produtos agr¡¦olas ?dramaticamente reduzido. A maior precis¡¦ da hibridação das plantas se traduz em maior previsibilidade do desempenho e da sobreviv¡¦cia dos produtos resultantes.

    A aplicação da biotecnologia pode criar plantas que s¡¦ mais resistentes ¡¦ secas, que t¡¦ maior toler¡¦cia ao sal, que resistem melhor ¡¦ pragas -- sem pesticidas. As caracter¡¦ticas das plantas podem ser geneticamente alteradas para que elas amadure¡¦m mais rapidamente, para que possam ser transportadas mais facilmente, para reduzir as perdas ocorridas ap¡¦ a colheita e para melhorar a qualidade nutricional. As vacinas contra as doen¡¦s que atacam o gado j?s¡¦ importantes produtos da pesquisa biotecnol¡¦ica.

    Nos ¡¦timos anos, a ¡¦ea dedicada ao plantio de produtos transg¡¦icos tem crescido continuamente. Em 1998, a ¡¦ea global ocupada pelos produtos transg¡¦icos mais do que duplicou em relação ?¡¦ea de 1997; os Estados Unidos ocupavam a posição de lideran¡¦, com 10,5 milh¡¦s de hectares (um hectare ?igual a 1,47 acres), ou seja 74 por cento da ¡¦ea global. Os cinco principais produtos s¡¦ a soja, o milho, o algod¡¦, a canola/semente de colza e a batata. Em termos de caracter¡¦tica de produto transg¡¦ico, a maior ¡¦ea era ocupada pelas variedades de produtos tolerantes a herbicidas (71 por cento) seguida pela ¡¦ea ocupada pelos tipos resistentes a insetos (28 por cento).

    A maior parte dos primeiros produtos da biotecnologia agr¡¦ola tem como enfoque a proteção dos produtos. Em 1998, os produtos transg¡¦icos tolerantes a herbicidas cobriam aproximadamente 19.8 milh¡¦s de hectares. O uso de variedades tolerantes a herbicidas facilita grandemente o controle de ervas com o uso de certos tipo de herbicida. Al¡¦ disso, gra¡¦s ao uso dessas variedades, os fazendeiros podem adotar pr¡¦icas de conservação do solo, como a lavra com a menor freqüência poss¡¦el, o que reduz a eros¡¦ do solo.

    No que se refere ?maior resist¡¦cia ¡¦ pragas agr¡¦olas, estima-se que em 1998, foram plantados produtos agr¡¦olas transg¡¦icos em 7.7 milh¡¦s de hectares, com a introdução de genes que produzem subst¡¦cias t¡¦icas ¡¦ pragas agr¡¦olas - os insetos relacionados como alvos do produto. Isso resultou em uma redução no uso de pesticidas, e em um impacto positivo n¡¦ apenas sobre os ganhos das fazendas mas tamb¡¦ sobre o meio ambiente.

    Al¡¦ disso, h?pesquisas em andamento para melhorar a qualidade nutritiva ou o valor de alguns produtos agr¡¦olas nos pa¡¦es em desenvolvimento. Por exemplo, cientistas suíços desenvolveram um tipo de arroz geneticamente modificado que possui n¡¦eis mais elevados de Vitamina A e ferro. Como temos aproximadamente 2,4 bilh¡¦s de pessoas para as quais o arroz ?o cereal b¡¦ico da sua dieta, este "novo" arroz pode prevenir casos de cegueira e anemia, especialmente entre milh¡¦s de crian¡¦s nos pa¡¦es em desenvolvimento.

    Quest¡¦s e Preocupações

    A revolução nas ci¡¦cias biol¡¦icas apresenta, ao mesmo tempo, promessas e problemas. Estamos enfrentando profundas quest¡¦s ¡¦icas e de seguran¡¦, agravadas por quest¡¦s de direitos sobre os produtos da ci¡¦cia. Algumas das preocupações partem de cientistas que indagam se os resultados desses esfor¡¦s da ci¡¦cia podem produzir "super ervas" ou "super v¡¦us". Muitos protestos j?foram apresentados por instituições da sociedade civil, tendo como base quest¡¦s ¡¦icas ou ecol¡¦icas. O dom¡¦io do setor privado no norte, onde a maior parte do desenvolvimento na biotecnologia agr¡¦ola, at?agora, tem ocorrido, suscita temores de que isso criar?uma nova fase de desvantagem comparativa e maior depend¡¦cia, no sul.

    Entre os assuntos em jogo, destacam-se o registro de patentes e os direitos ?propriedade intelectual (IPR). Segundo os defensores do registro de patentes, j?que o setor privado deve se mobilizar e investir grandes quantias na pesquisa e no desenvolvimento da biotecnologia agr¡¦ola, ele tamb¡¦ tem todo o direito de proteger e recuperar o que investiu. Por outro lado, existe o temor de que o registro de patentes e o exerc¡¦io de IPR possa levar a um monop¡¦io do conhecimento, ao acesso restrito ao germoplasma, a controles sobre o processo de pesquisa, ?seletividade no enfoque da pesquisa, ao desenvolvimento de um "apartheid" na ci¡¦cia e na tecnologia, e portanto, na marginalização, cada vez maior, de grande parte da população do mundo.

    Essas preocupações n¡¦ podem e n¡¦ devem ser ignoradas. Em outubro, o CGIAR e a Academia Nacional de Ci¡¦cias dos Estados Unidos [U.S. National Academy of Sciences] realizaram uma confer¡¦cia internacional ("Garantia da Seguran¡¦ Alimentar, Proteção do Meio Ambiente e Redução da Pobreza: A Biotecnologia Pode Ajudar?") ["Ensuring Food Security, Protecting the Environment, and Reducing Poverty: Can Biotechnology Help?"] para examinar, na sua totalidade, as quest¡¦s relacionadas com o desenvolvimento e utilização da biotecnologia agr¡¦ola, e mais particularmente para discutir as salvaguardas contra os seus riscos percebidos. A confer¡¦cia, realizada no Banco Mundial em Washington, reuniu cientistas, governos, a sociedade civil e profissionais da ¡¦ea de comunicação para uma discuss¡¦ aberta das quest¡¦s. (Para maiores informações visite o site do CGIAR na Web, no seguinte endere¡¦: http://www.cgiar.org).

    A quest¡¦ cr¡¦ica ?que todos os instrumentos de transformação na agricultura devem ser mobilizados nos nossos esfor¡¦s para alimentar os famintos, ajudar os pobres e proteger o meio ambiente. N¡¦ podemos aceitar a id¡¦a de que privação est?impregnada nos genes dos pobres e miser¡¦eis, e que o sofrimento ?o seu destino inevit¡¦el. A dimens¡¦ ¡¦ica do ato de priv?los das vantagens que a biotecnologia - com as salvaguardas adequadas - pode proporcionar, deve ser comparada a outras preocupações ¡¦icas. Ambos os conjuntos de quest¡¦s devem ser confrontados corajosamente. Precisamos encontrar meios de fazer com que a promessa da biotecnologia se concretize, e ao mesmo tempo devemos evitar as armadilhas.

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    Observação: As opini¡¦s apresentadas neste artigo n¡¦ refletem, necessariamente, as opini¡¦s ou as pol¡¦icas do governo dos Estados Unidos.

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