Rochelle L. Stanfield
"Minha identidade acabou sendo hisp¡¦ica, embora eu seja apenas meio-a-meio," ele explicou." Ele disse que, dessa forma, ele compreendia a frustração dos casais inter-raciais, que sempre foram orientados no sentido de atribuir apenas uma ra¡¦ aos seus filhos quando preenchem formul¡¦ios de ¡¦g¡¦s do governo. "Eles est¡¦ dizendo: "Por que temos que fazer uma opção entre os pais?", disse o funcion¡¦io do Escrit¡¦io de Recenseamento.
No censo decenal de 2000, esse n¡¦ ser?mais o caso. Pela primeira vez, os formul¡¦ios do censo dar¡¦ ¡¦ pessoas a opção de assinalar a quantidade adequada de ra¡¦s. O resultado disso ?que o Escrit¡¦io de Recenseamento dever?obter uma vis¡¦ melhor dos casamentos inter-raciais nos Estados Unidos.
Na aus¡¦cia de um m¡¦odo direto como esse, poucos anos atr¡¦, o veterano dem¡¦rafo Barry Edmonston utilizou t¡¦nicas sofisticadas de criação de modelos matem¡¦icos para calcular a maneira pela qual os casamentos inter-raciais est¡¦ mudando o perfil dos Estados Unidos, como parte de um estudo sobre a imigração que ele dirigiu para o Conselho Nacional de Pesquisa da Academia Americana de Ci¡¦cias [National Research Council of the American Academy of Sciences]. Seu estudo foi apresentado de forma resumida em um relat¡¦io intitulado Os Novos Americanos: Efeitos Econ¡¦icos, Demogr¡¦icos e Fiscais da Imigração [The New Americans: Economic, Demographic and Fiscal Effects of Immigration]. Mas, sendo branco, nascido no Canad? e casado com a soci¡¦oga Sharon Lee, que ?chinesa-americana, Edmonston, na verdade, n¡¦ precisava de nenhum computador para compreender a transformação que est?ocorrendo nesta sociedade. Ele a sua fam¡¦ia s¡¦ participantes vivos e ativos dessa transformação.
A face da Am¡¦ica est?mudando -- literalmente. Como disse o presidente Clinton, dentro de 30 ou 40 anos, quando n¡¦ houver nenhuma ra¡¦ espec¡¦ica como maioria nos Estados Unidos, "?bom que estejamos preparados para isto." De sua parte, Clinton est?se preparando para essa ¡¦oca, falando sobre a toler¡¦cia racial e as virtudes do multiculturalismo. Outros est¡¦ discutindo a pol¡¦ica de imigração. Praticamente todas as discuss¡¦s t¡¦ como enfoque o potencial para a disc¡¦dia que ?inerente a uma nação que j?n¡¦ ?mais um pa¡¦ predominantemente branco de ascend¡¦cia, em grande parte, europ¡¦a.
Mas nos bastidores h?outra tend¡¦cia, que se for administrada com cuidado, pode aproximar mais as v¡¦ias partes do pa¡¦, em vez de separ?las. Esta silenciosa contra-revolução demogr¡¦ica ?um aumento significativo no n¡¦ero de casamentos inter-raciais.
"A demografia ?uma coisa muito ¡¦tima," observa Ben J. Wattenberg, pesquisador s¡¦ior no Instituto Empresarial Americano para a Pesquisa de Pol¡¦icas P¡¦licas [American Enterprise Institute for Public Policy Research] (AEI) em Washington. "N¡¦ se trata do que os ativistas dizem, e sim do que os jovens, homens e mulheres, fazem. E o que eles est¡¦ fazendo? Eles est¡¦ se casando e tendo filhos."
Segundo as projeções do estudo de Edmonston, at?o ano 2050, 21 por cento da população dos Estados Unidos ser?composta por pessoas de origem racial ou ¡¦nica mista, em comparação com a proporção atual, que ?de aproximadamente sete por cento. Entre os hisp¡¦icos e americanos de origem asi¡¦ica de terceira geração, a exogamia -- casamento fora do grupo ¡¦nico ou tribo do indiv¡¦uo -- chega a pelo menos 50 por cento. Essas s¡¦ as estimativas de Edmonston e de outros. A exogamia continua ocorrendo em uma proporção muito menor entre os negros, mas ela tem apresentado um enorme crescimento, de aproximadamente 1,5 por cento na d¡¦ada de 60 para 8 a 10 por cento atualmente.
Essa profunda mudan¡¦ demogr¡¦ica poderia estar ocorrendo sem que ningu¡¦ percebesse, porque, oficialmente, ningu¡¦ estava observando. Os ¡¦g¡¦s do governo federal tradicionalmente coletam dados referentes ¡¦ ra¡¦s usando uma f¡¦mula -- uma pessoa, uma ra¡¦ -- semelhante ao tradicional princ¡¦io da contagem dos votos. Dessa forma, o Escrit¡¦io de Recenseamento poderia estimar que nos formul¡¦ios de recenseamento, n¡¦ mais que dois por cento dos habitantes declarariam ser indiv¡¦uos multirraciais. Na aus¡¦cia de uma contagem mais precisa, ningu¡¦ poderia saber, ao certo, qual ?a situação demogr¡¦ica.
Isso est?prestes a mudar. Ap¡¦ o censo 2000, o governo dos Estados Unidos dever?ter uma id¡¦a melhor. Em 1997, o Escrit¡¦io de Administração e Or¡¦mento [Office of Management and Budget], que fiscaliza as pr¡¦icas estat¡¦ticas federais, aprovou uma norma segundo a qual as pessoas podem assinalar, nos formul¡¦ios, o n¡¦ero de ra¡¦s que achar necess¡¦io para descreverem a si mesmas. Esta mudan¡¦ foi uma acomodação entre as exig¡¦cias de alguns grupos de interesses que queriam que fosse acrescentada uma caixa "multirracial", e daqueles que n¡¦ queriam nenhuma mudan¡¦, pois temiam a diluição dos seus grupos.
Para se preparar para o censo 2000, o Escrit¡¦io de Recenseamento fez simulações em tr¡¦ locais nos Estados Unidos. Em Sacramento, Calif¡¦nia, 5.4 por cento dos habitantes pesquisados assinalaram mais de uma ra¡¦, quase tr¡¦ vezes a proporção que muitos especialistas esperavam. As estat¡¦ticas tamb¡¦ demonstram que n¡¦ero de casamentos inter-raciais est?crescendo. Entre as pessoas de mais de 18 anos de idade, 4,1 por cento assinalaram mais de uma caixa; entre as pessoas de menos de 18 anos de idade, 8,1 por cento o fizeram.
Enquanto isso, na aus¡¦cia de estat¡¦ticas oficiais, com o aumento da tens¡¦ referente ¡¦ quest¡¦s raciais, e com a suspeita m¡¦ua que existe entre grupos de interesses raciais e ¡¦nicos que competem entre si, h?muita controv¡¦sia sobre o que os casamentos inter-raciais significar¡¦ para a sociedade dos Estados Unidos no futuro.
Alguns soci¡¦ogos dizem que os casamentos inter-raciais entre asi¡¦icos e brancos e entre hisp¡¦icos e descendentes de ingleses s¡¦ apenas os ¡¦timos a serem acrescentados ao cadinho que, desde o in¡¦io do s¡¦ulo, tem unido tantas fam¡¦ias irlandesas, italianas, alem¡¦, e outras, de origem europ¡¦a. Mas apesar do aumento no n¡¦ero de casamentos entre negros e brancos, muitos duvidam que os negros ser¡¦ inclu¡¦os nessa miscigenação.
"Acho que a linha, nos Estados Unidos, que ?quase imposs¡¦el de ser apagada, ?aquela que separa os negros de todos os outros," diz Roger Wilkins, professor de hist¡¦ia na Universidade George Mason [George Mason University], localizada em uma ¡¦ea suburbana da Virg¡¦ia. Wilkins vem se destacando, h?muito tempo, como uma personalidade na ¡¦ea dos direitos civis. "Os negros sempre foram a massa imposs¡¦el de ser digerida. No entanto, n¡¦ h?d¡¦ida de que alguma coisa est?acontecendo," ele continua. "Basta ver os an¡¦cios nas televis¡¦ [com] belos modelos de ambos os sexos, que n¡¦ s¡¦ exatamente brancos. Essas pessoas s¡¦ uma mistura entre brancos e negros, negros e asi¡¦icos, hisp¡¦icos e brancos? Simplesmente n¡¦ se pode dizer."
Outros prev¡¦m que o quarto de dormir far?o que outros catalisadores n¡¦ conseguiram fazer. Douglas J. Besharov, pesquisador residente do AEI, disse, em um artigo publicado em 1996, em The New Democrat, que o n¡¦ero cada vez maior, de jovens de ra¡¦s mistas representa "a melhor esperan¡¦ para o futuro das relações raciais nos Estados Unidos."
Ramona Douglass, presidente da Associação de Americanos Multi¡¦nicos [Association of MultiEthnic Americans], declarou, entusiasmada: "Somos a prova viva de que pessoas com duas origens raciais ou ¡¦nicas diferentes podem viver juntas em harmonia, que as fam¡¦ias [inter-raciais], na verdade, funcionam." A m¡¦ de Douglass ?¡¦alo-americana, e seu pai ?uma mistura das ra¡¦s negra e ind¡¦ena.
Muitos, naturalmente, argumentam que os casamentos inter-raciais constituem um genoc¡¦io gradual que resultar?no desaparecimento do seu grupo espec¡¦ico. Esta era a vis¡¦ tradicional da comunidade judia, que, atrav¡¦ da hist¡¦ia, defendeu cuidadosamente a sua pequena população contra as perdas devido ?assimilação. Mas a alt¡¦sima taxa de casamentos de judeus com pessoas de outros grupos ap¡¦ a Segunda Guerra Mundial causou uma mudan¡¦ na posição oficial dos elementos progressistas do juda¡¦mo americano. Esses grupos ainda estimulam o casamento entre pessoas que tenham a mesma f? mas em vez de criticar aqueles que se casam com n¡¦-judeus, eles, agora, est¡¦ procurando se aproximar desses casais formados por pessoas de ra¡¦s diferentes.
"A comunidade judia, pelo menos as suas alas mais liberais, deixou de se considerar ultrajada, e agora busca uma aproximação," explica Egon Mayer, que ?professor de sociologia na Faculdade do Brooklyn [Brooklyn College] e que foi um dos diretores do Banco de Dados Judeu da Am¡¦ica do Norte [North American Jewish Data Bank] na Universidade da Cidade de Nova York [City University of New York] (CUNY). "Tem ocorrido uma grande intensificação nos esfor¡¦s de entrar em contato com essas fam¡¦ias, de convid?las para uma visita, e de estabelecer um ambiente multicultural, o que s?nos trar?benef¡¦ios."
Embora os soci¡¦ogos fa¡¦m quest¡¦ de ressaltar as diferen¡¦s entre os judeus e outros grupos minorit¡¦ios, eles reconhecem que a evolução da postura dos judeus, no que se refere aos casamentos inter-raciais, pode servir de modelo para a nação como um todo, pois ela exp¡¦, e em seguida encara, sem rodeios, a mistura racial e ¡¦nica nos Estados Unidos.
Cadinho
Se voc?quiser ver a nova face dos Estados Unidos, v?a um supermercado e examine uma caixa de produtos aliment¡¦ios da marca Betty Crocker. O retrato de Betty est? no momento, na sua oitava reincarnação, desde que a primeira pintura surgiu em 1936, com a pele muito branca e olhos azuis. Agora, ela tem olhos castanhos e cabelos escuros. Sua pele ?mais escura do que a das suas sete antecessoras e suas feições representam uma am¡¦gama de ascend¡¦cia branca, hisp¡¦ica, ind¡¦ena, negra e asi¡¦ica.
Um computador criou esta nova Betty em meados da d¡¦ada de 90, a partir de uma mistura das fotos de 75 mulheres de ra¡¦s diferentes. Esse processo foi relativamente r¡¦ido, segundo as explicações dos representantes General Mills Inc. Mas eles reconhecem que demorou bastante tempo at?que eles conseguiram fazer com que a nova imagem cobrisse toda a gama de produtos Betty Crocker.
A lentid¡¦ do processo poderia ser uma met¡¦ora para a gradual mistura racial e
¡¦nica neste pa¡¦. Na verdade, est?demorando muito para que o novo americano miscigenado surja na consci¡¦cia da sociedade. Tiger Woods, o jovem campe¡¦ de golfe, popularizou a tend¡¦cia ao se identificar como "Cablinasian", uma mistura formada pelas ra¡¦s branca, negra, ind¡¦ena e asi¡¦ica.
De modo geral, o mercado -- e n¡¦ o governo -- assumiu a lideran¡¦, nesta evolução. Modelos de ra¡¦ mista, especialmente homens, est¡¦ sendo muito disputados, de acordo com os especialistas da ind¡¦tria da moda. E atores infantis multirraciais, no momento, t¡¦ maiores probabilidades de serem procurados para participarem de an¡¦cios na televis¡¦.
As ag¡¦cias de publicidade que contratam esses atores "n¡¦ s¡¦ formadas por pessoas idealistas," diz Wilkins. "O que elas querem ?vender coisas, e elas estudam, muito cuidadosamente, as tend¡¦cias. Portanto, o que elas v¡¦ ?um grande mercado, que ?atingido por pessoas lindas que n¡¦ s¡¦ exatamente brancas, e que n¡¦ est¡¦ clamando por uma Am¡¦ica miscigenada."
O fato de estudiosos s¡¦ios estarem falando sobre um cadinho ? em si, um retrocesso. Como met¡¦ora para a diversidade americana, a express¡¦ cadinho caiu no descr¡¦ito pela primeira vez ap¡¦ a Primeira Guerra Mundial, quando os imigrantes europeus, que estavam vindo para as cidades americanas em grandes n¡¦eros, formavam encraves ¡¦nicos e nacionais distintos, que n¡¦ se misturavam.
Ficou evidente que o momento n¡¦ era o ideal, e o cadinho metaf¡¦ico estava no lugar errado. A fus¡¦ entre as ra¡¦s e etnias teve in¡¦io ap¡¦ a Segunda Guerra Mundial, e aconteceu nos sub¡¦bios. As pessoas da cidade se mudaram dos seus bairros italianos, poloneses, ou judeus, para ambientes suburbanos de caracter¡¦ticas indefinidas, e em seguida matricularam seus filhos em grandes universidades p¡¦licas, onde eles se uniram aos jovens de outras origens ¡¦nicas, que, mesmo assim, vinham de fam¡¦ias com estilos de vida similares.
"A maior parte das pessoas encontram seus poss¡¦eis parceiros na universidade ou quando come¡¦m a trabalhar," diz a soci¡¦oga Lee, professora da Universidade de Richmond [University of Richmond] (Virginia), que no momento est?atuando como pesquisadora visitante na Universidade Estadual de Portland, Oregon [Portland (Oregon) State University]. "Quando voc?tem formação universit¡¦ia, voc?provavelmente vai estar em um ambiente em que haver?pessoas de todos os tipos de origem ¡¦nica, e isso faz com que aumentem as suas chances de se casar com algu¡¦ diferente da sua pr¡¦ria origem ¡¦nica." Lee ?um caso t¡¦ico, pois conheceu seu marido, Edmonston, diretor do Centro Estadual de Pesquisa Populacional e Recenseamento, de Portland [Portland State's Center for Population Research and Census], quando ambos eram estudantes.
David Tseng, assistente especial da Administração de Pens¡¦s e Benef¡¦ios do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos [U.S. Department of Labor's Pension and Welfare Benefits Administration], tem uma hist¡¦ia parecida. Sua m¡¦ veio do Equador; seu pai era filho de um diplomata chin¡¦ em Washington. O casamento deles, no final da d¡¦ada de 50, foi um acontecimento incomum para a ¡¦oca. Mas, diz Tseng, "acho que o que ajudou foi o fato de que as pessoas com quem eles tinham amizade e conv¡¦io social eram educadas e inteligentes e se sentiam ?vontade com pessoas de outras terras e culturas."
Essa din¡¦ica agora ?comum entre indiv¡¦uos de origem asi¡¦ica e hisp¡¦ica, nascidos nos Estados Unidos. "Temos visto altos ¡¦dices de casamentos inter-raciais entre hisp¡¦icos e asi¡¦icos, que est¡¦ vivendo em ¡¦eas bastante integradas fora das suas ¡¦eas tradicionais [de concentração] no sudoeste e no oeste," ressaltou Edmonston. Ele citou um estudo segundo o qual h?uma taxa de 80 por cento de exogamia entre os indiv¡¦uos de origem asi¡¦ica, nascidos nos Estados Unidos, na Nova Inglaterra (regi¡¦ nordeste dos Estados Unidos), por exemplo.
Ironicamente, o crescimento da imigração e a tend¡¦cia ao multiculturalismo, que tantos analistas v¡¦m como grandes fatores que podem resultar em antagonismo, na verdade, acabam contribuindo para essa mistura entre as ra¡¦s e os grupos ¡¦nicos. "A partir do momento em que voc?fragmenta... a sociedade em tantas origens ¡¦nicas diferentes, fica matematicamente muito menos prov¡¦el que voc?encontre algu¡¦ da sua pr¡¦ria etnicidade," diz Wattenberg. "Isso ?o que aconteceu, basicamente, com a população judia."
Se os negros v¡¦ ou n¡¦ acompanhar as outras minorias rumo ?miscigenação ?um assunto que ainda est?sujeito a discuss¡¦. Os c¡¦ticos chamam a atenção para o fato de que a proporção de casamentos entre negros e brancos ?muito menor, e dizem que a miscigenação n¡¦ acontecer?t¡¦ cedo. Outros argumentam que a base estat¡¦tica ?muito pequena porque, at?1967, tais casamentos eram ilegais em 19 estados.
For¡¦s Opostas
Embora muitas for¡¦s se unam para facilitar os casamentos inter-raciais, h?tamb¡¦ as for¡¦s que se op¡¦m a eles. Isso ?particularmente verdadeiro no que se refere aos negros.
O crescente segmento da comunidade negra que est?freq¡¦ntando as universidades, ingressando na classe m¡¦ia e se mudando para os sub¡¦bios est? tamb¡¦, seguindo a tend¡¦cia geral rumo aos casamentos inter-raciais. Essa tend¡¦cia ?particularmente percept¡¦el na Calif¡¦nia e em cidades como Dallas (Texas), Las Vegas (Nevada) e Phoenix (Arizona), onde a segregação residencial tem sido menos pronunciada do que nas cidades mais antigas, do nordeste e do meio-oeste dos Estados Unidos, segundo Reynolds Farley, que estudou as tend¡¦cias de moradia dos negros. Na Calif¡¦nia, por exemplo, entre os americanos negros de 25 a 34 anos de idade, 14 por cento das mulheres negras casadas e 32 por cento dos homens negros casados tinham c¡¦juges de uma ra¡¦ diferente, Edmonston observou.
Mas nos bairros urbanos isolados do nordeste e do meio-oeste dos Estados Unidos, a velha tend¡¦cia prevalece. "Existe uma parcela consider¡¦el da população negra que ainda vive nas ¡¦eas centrais das cidades -- em Detroit, Chicago, Nova York -- e que ainda n¡¦ foi incorporada ao crescimento econ¡¦ico din¡¦ico," diz Farley, ex-professor da Universidade de Michigan [University of Michigan] e atual vice-presidente da Fundação Russel Sage [Russell Sage Foundation] em Nova York. "Essas pessoas foram exclu¡¦as do processo, e ficaram muito para tr¡¦."
Outro obst¡¦ulo ?a imigração. Os imigrantes, em geral, n¡¦ se casam fora do seu grupo racial ou ¡¦nico. Seus filhos o fazem, at?certo ponto, mas o casamento com indiv¡¦uos de outros grupos, de fato, ocorre com maior freqüência na terceira geração. A mais recente onda de imigração de grandes proporções apenas resultou em americanos de primeira ou segunda geração.
N¡¦ importa at?que ponto haja uma mistura racial e ¡¦nica. O verdadeiro teste de uma sociedade miscigenada ser?a proporção de pessoas que se identificam como multirraciais ou multi¡¦nicas. At?o momento, essa porcentagem tem sido pequena. Em parte isso ocorre porque as pessoas tendem a assumir a identidade racial ou ¡¦nica de um dos pais -- freq¡¦ntemente o elemento do casal que pertence a uma minoria, como ?o caso dos negros e hisp¡¦icos. Mas em grande parte, essa identidade tem sido imposta pela sociedade.
"Tenho um nome espanhol e falo espanhol, e portanto as pessoas me consideram um indiv¡¦uo de origem espanhola," DelPinal, o funcion¡¦io do Escrit¡¦io de Recenseamento, explicou.
A identificação racial pode se originar de outras fontes, como o orgulho ¡¦nico mais intenso, ou a oportunidade de se beneficiar da ação afirmativa e outros programas. Nas ¡¦timas d¡¦adas, a origem ind¡¦ena aparentemente se tornou uma caracter¡¦tica mais desej¡¦el. Entre 1970 e 1980, o n¡¦ero de pessoas que assinalavam "¡¦dio Americano" nos seus formul¡¦ios de recenseamento cresceu de 800.000 para 1,4 milh¡¦, um aumento muito mais r¡¦ido do que poderia ser atribu¡¦o aos nascimentos menos as mortes. "As pessoas chegaram ?conclus¡¦ de que queriam se identificar como ¡¦dios americanos, at?certo ponto por causa de uma consci¡¦cia ¡¦nica mais intensa," observou Jeffrey S. Passel, diretor do Programa de Pol¡¦ica de Imigração [Immigration Policy Program] no Instituto Urbano [Urban Institute] e ex-diretor da Divis¡¦ de População do Escrit¡¦io de Recenseamento.
?esta abordagem positiva em relação ?identificação racial ou ¡¦nica que os elementos liberais da comunidade judia est¡¦ tentando explorar. Durante dois mil anos, a exogamia foi uma grave transgress¡¦ para os judeus. (Em muitas comunidades, quando um judeu se casava com uma pessoa n¡¦-judia, as pessoas recitavam orações para os mortos; e tais orações eram dedicadas ao indiv¡¦uo que estava se casando) Como resultado dessa postura, os casamentos com pessoas de outros grupos eram raros. Antes da Segunda Guerra Mundial, tais casamentos somavam menos de sete por cento dos casamentos de judeus, segundo Mayer, da CUNY. Mas em 1970, uma Pesquisa Nacional da População Judia [National Jewish Population Survey] revelou que nos cinco anos anteriores, 30 por cento dos novos casamentos de judeus eram, de fato, uni¡¦s com pessoas n¡¦-judias. Em 1990, essa proporção havia se elevado para mais de 50 por cento.
Ap¡¦ muitas reuni¡¦s, muita auto-an¡¦ise e muitas discuss¡¦s acaloradas, v¡¦ios grupos de sinagogas nas denominações mais liberais, e organizações c¡¦icas judias, resolveram inverter sua posição. Elas ainda tentam desaconselhar os casamentos inter-raciais, mas a partir do momento em que eles ocorrem, as comunidades tendem a dar as boas vindas ¡¦ novas fam¡¦ias que re¡¦em elementos de diferentes cren¡¦s.
O rabino Daniel G. Zemel, do Templo Micah, uma congregação reformada de Washington, foi um dos que mudaram de posição. Em 1979, quando foi ordenado rabino, Zemel recordou recentemente, "eu achava que aqueles rabinos que celebravam casamentos inter-raciais deviam ser exclu¡¦os das associações de rabinos. Desde ent¡¦ minha maneira de pensar mudou muito." No entanto, ele disse, ele ainda n¡¦ celebra, pessoalmente, casamentos entre indiv¡¦uos de cren¡¦s diferentes. "Acho que se voc?puder encontrar meios de conceber uma comunidade judia diversa e heterog¡¦ea, ent¡¦ isso ?o que procuraremos ter, no futuro," ele disse. Mas, ele reconheceu que, para que isso aconte¡¦, ser?necess¡¦io fazer uma revolução na perspectiva daquele componente da comunidade judia que tem se mantido unido mais pelas ra¡¦es ¡¦nicas europ¡¦as do que pelas suas pr¡¦icas religiosas.
Essa mudan¡¦ profunda, contemplada por Zemel ? de certa forma, similar ¡¦ mudan¡¦s pelas quais os Estados Unidos est¡¦ tendo que passar, na sua transformação de uma nação predominantemente branca em uma sociedade multirracial, miscigenada. O primeiro passo nesse caminho ? provavelmente, descobrir quem somos. E isso requer uma contagem precisa de todas as cores e dos v¡¦ios matizes entre elas.
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Rochelle L. Stanfield, ex-correspondente do National Journal, ?uma escritora free-lancer, baseada em Washington, D.C., especializada em quest¡¦s demogr¡¦icas e urbanas.
Este artigo foi publicado originalmente na edição de 13 de setembro de 1997 do National Journal. O artigo foi atualizado pela autora. Copyright © 1997 by National Journal Group Inc. Todos os direitos reservados. Reproduzido com permiss¡¦
Durante anos, o trabalho de Jorge DelPinal, como assistente do chefe da Divis¡¦ de População do Escrit¡¦io de Recenseamento [Census Bureau's Population Division] consistia em encaixar as pessoas em divis¡¦s claras e distintas: brancas, negras, hisp¡¦icas, asi¡¦icas ou ind¡¦enas. No entanto, como filho de m¡¦ de origem inglesa e pai de origem hisp¡¦ica, ele sabia, o tempo todo, que nem sempre isso era poss¡¦el.
Sociedade e Valores dos EUA
Revista Eletr¡¦ica da USIA, Vol. 4, N?2, Junho de 1999