Uma hist¡¦ia de duas exposições
No inverno do ano passado, o Whitney Museum of American Art em Nova York apresentou duas exposições que, em conjunto, d¡¦ uma id¡¦a do estado plural¡¦tico do atual ambiente art¡¦tico nos Estados Unidos.
Uma delas consistia de uma s¡¦ie de grandes instalações de v¡¦eo, dram¡¦icas, de autoria do artista Bill Viola. O espectador podia observar, perplexo, enquanto as imagens projetadas em grandes telas eram consumidas pelo fogo e pela ¡¦ua, ou podia olhar pelo buraco da fechadura de uma sala fechada onde uma cela mon¡¦tica era periodicamente invadida por dram¡¦icos raios, ondas e furiosas tempestades. A exposição refletia os interesses de Viola nas tradições espirituais desde o Zen at?o Sufismo e o Cristianismo.
A outra exposição era uma retrospectiva dedicada ao trabalho de Arthur Dove, um pintor abstrato americano, pouco conhecido, das d¡¦adas de trinta e quarenta. As pequenas, modestas e abstratas composições de Dove representam o esfor¡¦ do artista para sintetizar m¡¦ica, movimento e a experi¡¦cia visual da natureza. As obras de Dove fazem parte de coleções dos principais museus em v¡¦ios pontos dos Estados Unidos. No entanto, at?recentemente, ele freq¡¦ntemente era considerado uma figura provinciana cuja exploração da abstração era sobrepujada pelas realizações de mais renome, de Picasso, Matisse, e outros membros da vanguarda francesa. Recentemente, no entanto, os historiadores da arte come¡¦ram a reescrever a hist¡¦ia padr¡¦ da arte moderna. De acordo com essa releitura, a arte americana somente se tornou interessante ap¡¦ a chegada de artistas imigrantes a Nova York no final da Segunda Guerra Mundial. O ressurgimento de Dove sinaliza uma nova disposição, por parte dos acad¡¦icos e cr¡¦icos, no sentido de avaliar as genu¡¦as realizações de uma geração anterior de pioneiros da arte americana.
Lado a lado, as duas exposições eram um estudo de contrastes. Uma era muito teatral, contando com a mais recente tecnologia de v¡¦eo e digital e atraindo os visitantes para uma relação f¡¦ica com imagens pulsantes de v¡¦eo. A outra era silenciosa e contemplativa, explorando uma hist¡¦ia subvalorizada e oferecendo um louvor ¡¦uela que ?a mais aceita das formas de arte, a pintura. E no entanto, v¡¦ios visitantes observaram a surpreendente compatibilidade das duas exposições, na sua capacidade de mesclar tipos diferentes de experi¡¦cias sensoriais.
A apresentação simult¡¦ea dessas exposições revela uma importante realidade sobre a atual conjuntura no meio art¡¦tico americano. Estamos em um tempo de movimento em que desenvolvimentos contrastantes e at?mesmo contradit¡¦ios podem coexistir e se fertilizar mutuamente. A imagem confort¡¦el e antiga da hist¡¦ia da arte como uma hist¡¦ia que se desdobra de forma evolucion¡¦ia, com um movimento que nos leva, l¡¦ica e inexoravelmente a outro, j?n¡¦ parece ter nenhuma relev¡¦cia no que diz respeito ?era conhecida como p¡¦-moderna na qual nos encontramos. Em vez disso, os artistas buscam inspiração em todos os per¡¦dos do passado distante e recente, falam de assuntos t¡¦ diversos quanto pol¡¦ica p¡¦-colonial, intelig¡¦cia artificial, e psican¡¦ise, e direcionam suas obras para p¡¦licos que variam desde aficionados tradicionais da arte at?intr¡¦idos navegadores da Web, incluindo o apressado viajante que passa rapidamente por uma estação ferrovi¡¦ia ou um aeroporto.
A Globalização da arte
A desordem no mundo da arte contempor¡¦ea ? na verdade, um reflexo das grandes transformações pelas quais a sociedade em geral est?passando. O fim da Guerra Fria, o advento dos mercados globais e o aparecimento de formas radicalmente novas de comunicação eletr¡¦ica transformaram a vida contempor¡¦ea nos Estados Unidos de formas que teriam sido inimagin¡¦eis at?mesmo dez anos atr¡¦. N¡¦ admira que o mundo da arte reflita esse estado de transição radical.
Na verdade, um dos mais surpreendentes desenvolvimentos na arte contempor¡¦ea pode ser diretamente ligado a essas grandes correntes sociais, pol¡¦icas e econ¡¦icas. Da mesma forma que o colapso da Guerra Fria focalizou a atenção sobre partes do mundo que haviam sido ignoradas devido ?batalha monumental entre as superpot¡¦cias, o mundo da arte come¡¦u a ampliar o seu foco geogr¡¦ico. Os profissionais da arte j?n¡¦ podem mais limitar sua atenção ao que acontece nos Estados Unidos e na Europa. Agora, qualquer estudo s¡¦io de arte contempor¡¦ea deve incluir artistas do mundo inteiro. Artistas, curadores, cr¡¦icos e colecionadores agora parecem n¡¦ades culturais, constantemente em movimento ?procura de novidades.
Como conseqüência do campo de vis¡¦ mais amplo, os museus atuais t¡¦ um alcance geogr¡¦ico muito maior do que tinham anteriormente. Enquanto eu escrevo este ensaio em Nova York, est?havendo uma exposição de arte hist¡¦ica e contempor¡¦ea chinesa no Museu Guggenheim. O New Museum recentemente encerrou uma exposição de um artista palestino que mora na Inglaterra e inaugurou uma exposição das obras de um artista que vive na Espanha. O Museum of Modern Art [MOMA] est?apresentando uma exposição de desenhos da Am¡¦ica Latina. Enquanto isso, em San Antonio, Texas, uma nova fundação de arte chamada ArtPace proporciona est¡¦ios para jovens artistas do mundo inteiro.
O Que ?um artista americano?
Neste clima, as quest¡¦s de identidade nacional se tornam cada vez mais nebulosas.
Uma quest¡¦ que surge cada vez com mais freqüência ? O que, exatamente ?um artista americano (ou, na verdade, o que ?um artista italiano, ou nigeriano, ou filipino)? Ser?que um artista americano ?uma pessoa que nasceu nos Estados Unidos? ?algu¡¦ que possui cidadania americana? ?algu¡¦ que atualmente est?morando nos Estados Unidos? E os americanos que vivem no exterior - - eles ainda podem ser considerados artistas americanos?
Quest¡¦s similares surgem a respeito das definições de arte americana. Trata-se de um estilo? Ou ser?que ?uma atitude, um tipo de treinamento ou uma escolha de temas? Essas quest¡¦s ainda s¡¦ importantes porque, freq¡¦ntemente, as subvenções para essas exposições s¡¦ determinadas pela origem nacional do indiv¡¦uo. ¡¦g¡¦s governamentais fornecem os fundos para apoiar a inclus¡¦ dos seus artistas em tais exposições internacionais. Enquanto alguns adotam uma vis¡¦ mais rigorosa, outros t¡¦ uma atitude mais liberal. A Ag¡¦cia de Informações dos Estados Unidos [United States Information Agency-USIA], por exemplo, que patrocina muitas "bienais" internacionais, apenas exige que os artistas morem nos Estados Unidos.
O Impacto da m¡¦ia eletr¡¦ica
O surgimento da nova m¡¦ia eletr¡¦ica refor¡¦ essas mudan¡¦s. Este artigo, que voc?est?lendo em uma publicação on-line, demonstra a maneira pela qual a infovia ignora as fronteiras entre os pa¡¦es e estabelece conex¡¦ entre pessoas de lados opostos do mundo. Similarmente, os artistas come¡¦ram a explorar as maneiras pelas quais a nova tecnologia pode alterar radicalmente o nosso conceito de n¡¦ mesmos e da arte. P¡¦inas de artistas na web ajudam os artistas a passar ao largo das instituições do mundo das artes para poder apresentar suas obras a um novo p¡¦lico-alvo virtual. Muitos est¡¦ colocando suas obras em CD-ROMs para poder explorar uma nova ordem de interatividade. Usando tecnologia que se tornou dispon¡¦el recentemente, eles podem projetar obras de arte que permitem que as pessoas interessadas sigam os seus pr¡¦rios rumos e criem as suas pr¡¦rias conex¡¦s e narrativas. Enquanto isso, os museus e as galerias est¡¦ descobrindo que os sites personalizados na web permitem que eles coloquem exposições de arte ?disposição das pessoas que n¡¦ podem comparecer.
Como era de se esperar, essas novidades deram origem a discuss¡¦s no meio art¡¦tico sobre o valor e a função da nova tecnologia e da arte na nova m¡¦ia. Alguns argumentam que a apresentação visual da arte desvaloriza o contato direto do espectador com o objeto, que foi, at?agora, o aspecto essencial de uma experi¡¦cia de arte. Outros dizem que ?um erro pensar nessas novas t¡¦nicas como novas formas de arte -- e que elas simplesmente expandem nossos meios de transmitir os tipos de id¡¦as que a arte sempre transmitiu. Outros, ainda, t¡¦ d¡¦idas sobre a promessa de novos p¡¦licos. Eles perguntam, qual ?a profundidade da experi¡¦cia da arte na web? A arte na web estimula uma noção melhor de democracia e participação, ou ela apenas cria uma nova divis¡¦ entre as classes, separando os que t¡¦ acesso ?tecnologia dos que n¡¦ t¡¦, de uma forma muito mais decisiva do que a dos antigos museus de arte considerados elitistas? Ser?que a web exige uma compreens¡¦ totalmente nova da est¡¦ica?
A Natureza mutante da arte p¡¦lica
As quest¡¦s de p¡¦lico tamb¡¦ est¡¦ por tr¡¦ de outro desenvolvimento na arte contempor¡¦ea, mais especificamente o interesse crescente na arte p¡¦lica. Enquanto a Web promete criar um vasto e novo p¡¦lico virtual para a arte, os artistas p¡¦licos est¡¦ interessados em trazer a arte ¡¦ comunidades reais, localizadas. Houve uma mudan¡¦ definitiva no pensamento a respeito da arte p¡¦lica, desde os dias em que ela era vista principalmente como decoração ou como um monumento colocado em um espa¡¦ p¡¦lico. Os artistas p¡¦licos contempor¡¦eos trabalham de v¡¦ias formas. Alguns criam projetos como parte de programas de "porcentagem de arte", nos quais uma porcentagem do or¡¦mento da construção de um edif¡¦io p¡¦lico ou privado ?alocada ?arte. Outros est¡¦ mais envolvidos em projetos tempor¡¦ios que assumem diversas formas, como por exemplo outdoors, seções de revistas criadas por artistas, e projetos comunit¡¦ios nos quais os artistas trabalham com os membros de certas comunidades. Esses projetos de bairro podem variar desde a criação de um jardim comunit¡¦io at?um programa de educação art¡¦tica que d?¡¦ crian¡¦s carentes acesso ?arte e a equipamentos fotogr¡¦icos, para uma exploração conjunta da hist¡¦ia local.
Novamente, h?quest¡¦s e controv¡¦sias. Qual ?a natureza da responsbilidade do artista p¡¦lico em relação ?comunidade na qual o seu trabalho ?colocado? Um jardim ou um conjunto de placas ?arte mesmo? A arte est?come¡¦ndo a convergir e a se aproximar demais do servi¡¦ social?
Como era de se esperar, tais mudan¡¦s radicais na definição e distribuição da arte est¡¦ tendo um efeito sobre as instituições que a apresentam ao p¡¦lico. Um extraordin¡¦io caso recente ?o surgimento das "bienais" internacionais como um dos principais mecanismos pelos quais os artistas se tornam internacionalmente conhecidos. As bienais s¡¦ exposições internacionais organizadas a cada dois anos nas capitais de arte no mundo inteiro sobre algum tema t¡¦ico. Para as pessoas do mundo art¡¦tico, essas exposições s¡¦ locais importantes de reuni¡¦ onde id¡¦as s¡¦ trocadas, novas obras s¡¦ descobertas, e reputações s¡¦ consolidadas.
At?recentemente, as "bienais", em sua maioria, estavam limitadas a locais na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, na ¡¦tima d¡¦ada, essa situação come¡¦u a mudar. Os organizadores de arte em centros de arte long¡¦quos est¡¦ organizando as suas pr¡¦rias exposições, atraindo os curadores e cr¡¦icos importantes ¡¦ suas cidades e conquistando para si um lugar no mapa. Freq¡¦ntemente eles colocam uma ¡¦fase especial em artistas da regi¡¦ na qual a "bienal" ocorre.
Os temas adotados por essas exposições sugerem uma nova agenda. Com t¡¦ulos como "Beyond Borders" [Al¡¦ das Fronteiras], "Transculture" [Transcultura] e "Esperanto", eles tendem a enfatizar a id¡¦a segundo a qual a arte atual transcende o nacionalismo e as fronteiras entre os pa¡¦es. E os locais onde as exposições s¡¦ realizadas sugerem que o mundo art¡¦tico est?se tornando verdadeiramente global. Somente em 1997, houve bienais em Kassel e Meunster, Alemanha; Veneza, It¡¦ia; Lyon, Fran¡¦; Kwangju, Cor¡¦a do Sul; Joanesburgo, ¡¦rica do Sul; Istambul, Turquia; Lubliana, Eslov¡¦ia; Havana, Cuba; Sofia, Bulg¡¦ia; e Montenegro e S¡¦ Paulo, Brasil.
O Papel ampliado do museu
O novo foco no globalismo est?tamb¡¦ tendo um efeito sobre a organização dos museus. O modelo global ?articulado da maneira mais surpreendente pelo Museu Guggenheim, que cresceu al¡¦ da sua sede em Nova York, com filiais em Veneza, Berlim, e Bilbao, Espanha. Concebendo o museu menos como uma biblioteca ou um arquivo e mais como uma rede, Thomas Krens, diretor do Museu Guggenheim, faz com que as obras de arte e as exposições circulem entre essas filiais internacionais. Ele argumenta que um n¡¦ero grande demais de museus mant¡¦ a maior parte das coleções guardadas, fora da vista tanto de visitantes casuais quanto de especialistas. O sistema de filiais permite que ele coloque uma porcentagem muito maior do vasto acervo do museu ?disposição do p¡¦lico.
A nova concepção de Krens, do museu global, ?uma resposta a maiores expectativas em relação aos museus neste final do s¡¦ulo XX. Existe uma press¡¦ cada vez maior para que os museus atendam aos anseios dos seus p¡¦licos. Press¡¦s financeiras de doadores e concorr¡¦cia de outras formas de entretenimento for¡¦ram os museus a prestarem muito mais atenção ao trabalho de cultivar visitantes. Um resultado disso tem sido a elevação do status do campo de educação de museus. Essa atividade, que antigamente era considerada perif¡¦ica, e cujo enfoque era a organização de excurs¡¦s de escolas durante exposições nos museus, agora ?uma das principais finalidades das instituição.
Dois projetos famosos e rec¡¦ inaugurados revelam as maneiras pelas quais os muses est¡¦ expandindo seus pap¡¦s tradicionais. O novo J. Paul Getty Center ?um complexo de arte de um bilh¡¦ de d¡¦ares que foi inaugurado no final de 1997 em uma colina de onde se tem uma vista espetacular da cidade de Los Angeles. Embora a sua espinha dorsal seja um museu dedicado ¡¦ antiguidades gregas e romanas, ¡¦ artes decorativas e ¡¦ pinturas dos velhos mestres europeus, esse complexo de seis edif¡¦ios inclui institutos para pesquisa hist¡¦ica, conservação, informações sobre artes e humanidades, educação e o custeio das artes. Com um or¡¦mento operacional [anual] de 189 milh¡¦s de d¡¦ares, espera-se que ele amplie radicalmente o perfil de Los Angeles no meio art¡¦tico internacional.
Igualmente espetacular ?a nova filial do Guggenheim em Bilbao. O espetacular edif¡¦io, projetado pelo arquiteto americano Frank Gehry, est?sendo considerado uma obra de arte por seus pr¡¦rios m¡¦itos. Enquanto isso, o museu propriamente dito est?sendo visto como uma excelente aquisição, e espera-se que ele traga turistas para a regi¡¦. O custo da construção - 100 milh¡¦s de d¡¦ares - e o or¡¦mento operacional anual, foram bancados pelo governo basco. Em contrapartida, o Museu Guggenheim contribui com a sua grande coleção e compet¡¦cia da criação de programas educacionais e de pesquisa.
Arte contempor¡¦ea nos Estados Unidos
Que tipo de arte se adapta a esses tempos incertos? A diversidade da arte contempor¡¦ea nos Estados Unidos ?sugerida pelos artistas escolhidos para representar o pa¡¦ nas ¡¦timas tr¡¦ bienais de Veneza. Em 1993, a escolhida foi Louise Bourgeois, uma escultora nascida na Fran¡¦, e que est?na faixa dos oitenta anos de idade, cujas esculturas sensuais e realistas evocam o corpo humano sem represent?lo especificamente. Em 1995, o o escolhido foi Viola, o artista do v¡¦eo. E em 1997, o escolhido foi o pintor Robert Colescott, que se baseia na sua experi¡¦cia como negro nos Estados Unidos para satirizar o estado de relações raciais e a atitude tendenciosa dos brancos inerente na hist¡¦ia convencional dos Estados Unidos.
Esses tr¡¦ artistas apenas come¡¦m a sugerir a extens¡¦ da m¡¦ia e de quest¡¦s exploradas pelos artistas contempor¡¦eos americanos. A pintura atual varia do hiper-realismo de Chuck Close, cujos retratos gigantescos se baseiam em fotografias divididas em grat¡¦ulas e recriadas com um tipo de pintura a dedo; a Elizabeth Murray, cujas abstrações dom¡¦ticas transcendem o quadrado da tela para se curvar e inclinar de forma quase escultural; a Robert Ryman, cuja carreira ?uma cont¡¦ua meditação sobre as infinitas variações da tela branca.
ARTISTA ELIZABETH MURRAY:
FALANDO PARA O PRESENTE, A PARTIR DO PASSADO
Elizabeth Murray, mais conhecida pelas suas telas grandes, de formato irregular, e com v¡¦ias camadas, est?entre os pintores mais importantes que est¡¦ atualmente trabalhando nos Estados Unidos.
Seu trabalho tem sido descrito como uma fus¡¦ do expressionismo abstrato e o que um cr¡¦ico chamou de "figuração altamente sofisticada de funk" das ra¡¦es de Chicago, da artista. Murray nasceu nessa cidade de Illinois e cresceu l?e em Michigan. Ela estudou no Art Institute of Chicago, tendo terminado seu curso de graduação em belas artes em 1962; posteriormente ela fez mestrado no Mills College, em Oakland, Calif¡¦nia.Quando ela chegou a Nova York no final da d¡¦ada de sessenta, o minimalismo era uma das principais formas de arte. Murray come¡¦u a desenvolver a sua pr¡¦ria maneira de pintar. No in¡¦io, o seu estilo era derivado do minimalismo, uma est¡¦ica redutiva, baseada em formas geom¡¦ricas, mas com o passar do tempo, adquiriu energia e narrativa. No final da d¡¦ada de setenta, ela se tornou um s¡¦bolo da revitalização da pintura nos Estados Unidos, e aproximadamente uma d¡¦ada depois ela era considerada, em geral, como uma das principais figuras da sua geração.
Seus trabalhos s¡¦ inteligentes, animados, e f¡¦eis de serem reconhecidos. Ela freq¡¦ntemente insere objetos comuns em imagens abstratas. Suas telas grandes e coloridas s¡¦ carregadas de cores vivas e formas aparentemente abstratas que s¡¦ cheias de refer¡¦cias a objetos dom¡¦ticos como x¡¦aras de caf? mesas e figuras humanas cheias de energia e vibrante desordem.
Em um artigo publicado em 1991 no jornal The New York Times, a autora Deborah Solomon observou que a obra de Murray "recapitula grandes momentos na arte do s¡¦ulo XX". Os planos fraturados do cubismo, as cores vivas do fauvismo, as formas biom¡¦ficas abatidas do surrealismo, a escala her¡¦ca do expressionismo abstrato - - tudo isto est?presente em uma pintura de Murray. Isso n¡¦ quer dizer que ela "se apodera" do estilo da d¡¦ada de oitenta para ridicularizar o passado. Pelo contr¡¦io, ela mostra como as imagens do passado podem se comunicar com o presente."
Uma das mais recentes obras de Murray ?tamb¡¦ a maior e a mais ambiciosa da sua carreira - um mosaico mural de 40 metros que enfeita o mezanino de uma estação de metr?no centro de Nova York. Chamada Blooming [Florescendo], ?uma das mais de 60 obras de arte encontradas no sistema de metr?de Nova York. O mural mostra uma fantasia ricamente colorida de s¡¦s irradiantes, x¡¦aras de caf?e galhos de ¡¦vores que se parecem com serpentes.
Murray, de 58 anos, que anda de metr?h?mais de 30 anos, disse a David W. Dunlap, do jornal The New York Times, em um artigo de maio de 1998, que o mural foi inspirado em "trabalhadores".
"Eu tive essa vis¡¦ das pessoas se levantando bem cedo, meio que sonhando, se vestindo, tomando uma x¡¦ara de caf?e pegando o metr?para ir trabalhar."
Ultimamente, sua arte evolui da vida. "Quando voc?sai do atelier...pela rua afora, ?l?que voc?encontra a arte...Ou voc?a encontra em casa, bem ?sua frente."
Murray n¡¦ se considera uma pintora abstrata. "Todas as imagens na minha pintura representam alguma coisa. Elas n¡¦ s¡¦ puras como a abstração; elas n¡¦ est¡¦ tentando ser lindas ou eternas ou superiores ?vida. A abstração excluiu muita coisa."
Uma parte do apelo de Murray, segundo Marlena Doktorczyk-Donohue no n¡¦ero de fevereiro de 1997 de ArtScene, ?o fato de que o seu trabalho n¡¦ pode ser classificado.
"A obra ?rigorosamente abstrata, e no entanto, a figuração e a narrativa est¡¦ sempre no ar. Os elementos formais possuem uma vida de sangue quente que permite que a abstração entre na nossa consci¡¦cia coletiva...Se o mundo art¡¦tico pode ficar com a cabe¡¦ pesada, Murray, como uma crian¡¦ despreocupada que n¡¦ percebe outras pessoas no playground, cria a beleza a partir de algum lugar do seu coração indomado e deliciosamente enlouquecido."
"Eu pinto sobre as coisas que me rodeiam," Murray explica, "coisas que eu pego e manuseio todos os dias. Isso ?que ?arte. Arte ?um momento de revelação em uma x¡¦ara de caf?"
--Charlotte Astor
Ao lado de tudo isso est?o trabalho de artistas que exploram novos meios de express¡¦. Entre eles est?Nam June Paik, o artista nascido na Cor¡¦a que ?conhecido como "o pai da arte em v¡¦eo" e que usa televis¡¦s para montar rob¡¦ de hist¡¦ias em quadrinhos; Kenneth Snelson, que tem traduzido suas esculturas parecidas com um ¡¦omo em fantasias c¡¦micas usando o software digital mais avan¡¦do; e Paul Garrin, que criou uma instalação interativa na qual um c¡¦ de guarda virtual muito amea¡¦dor segue o visitante enquanto este se desloca pela sala.
Um item adicional nesse "mix" ?a presen¡¦ crescente, na arte americana, de artistas imigrantes cuja obra explora a complexidade da cultura e da identidade h¡¦ridas. Por exemplo, os artistas russos Vitaly Komar e Alexander Melamid vieram para os Estados Unidos em 1978, ap¡¦ consolidar uma reputação no "underground" na ent¡¦ Uni¡¦ Sovi¡¦ica pelas suas espirituosas e afetuosas par¡¦ias do realismo socialista sancionado pelos sovi¡¦icos. Agora o seu trabalho tem probabilidades de conter representações comicamente her¡¦cas de figuras como George Washington, Abraham Lincoln e o resistente e altivo trabalhador americano, portanto reconhecendo que a idealização da hist¡¦ia n¡¦ conhece fronteiras geogr¡¦icas nem ideol¡¦icas.
O artista chin¡¦ Xu Bing foi criado em Pequim, mas atualmente mora em Nova York. Ele cresceu durante a Revolução Cultural, um per¡¦do em que os livros considerados contra-revolucion¡¦ios era destru¡¦os, e seus autores, "reeducados". Seu trabalho trata do poder subversivo da linguagem escrita, atrav¡¦ da criação de livros cujo texto ?um h¡¦rido, sem sentido, de ingl¡¦ e chin¡¦. E o artista Yukinori Yanagi, nascido no Jap¡¦, e que tamb¡¦ mora em Nova York, expressa a instabilidade das fronteiras e identidades nacionais com enormes formigueiros cujos habitantes gradualmente desfazem montagens de areia colorida dispostas de modo a representar as bandeiras de muitas nações.
No momento em que a arte americana ruma para o s¡¦ulo XXI, fica cada vez mais evidente como o mundo do futuro ser?diferente do mundo do passado. Para os artistas, assim como para todos n¡¦, estamos vivendo tempos de incerteza. Mas a incerteza oferece os seus pr¡¦rios desafios criativos. No s¡¦ulo XXI, os artistas poder¡¦ nos ajudar a compreender como pensar e funcionar em um mundo que n¡¦, agora, quase n¡¦ podemos imaginar.
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Eleanor Heartney, escritora e cr¡¦ica de Art And America e outras publicações, ?a autora de Critical Condition: American Culture At The Crossroads.
Sociedade e Valores dos
EUA
Revista Eletr¡¦ica da USIA, Vol. 3, N?1,
Junho de 1998