Seguindo a mesma linha de racioc・io, as pessoas t・ id・a da pequena quantidade de verbas p・licas que s・ canalizadas para as artes, quando comparadas com as contribui苺es das empresas, das funda苺es e de doadores particulares?
R: N・, eu acho que n・. Eu n・ acho que as pessoas entendem a propor艫o. Na verdade, o apoio empresarial ainda n・ ?t・ grande quanto o dos doadores individuais. As funda苺es representam uma porcentagem muito pequena no c・puto geral das doa苺es. Os indiv・uos nos Estados Unidos, como voc?e eu, s・ os que sustentam as artes sem fins lucrativos.
P: V?a qualquer cidade, Cincinnati [Ohio], Atlanta [Georgia] e veja o que aparece na contracapa do programa impresso de qualquer apresenta艫o. Voc?ver?uma lista bastante representativa dos doadores locais. As pessoas ajudam o pessoal da sua ・ea.
R: At?certo ponto. Mas est?ficando cada vez mais dif・il, ?medida que as despesas aumentam.
P: Com a melhoria da situa艫o, no que se refere ?economia, as contribui苺es tamb・ est・ crescendo?
R: N・ necessariamente. O que eu estava tentando mostrar aos executivos das empresas durante o per・do que passei no NEA ?que eles precisam ajudar mais ainda. H?algumas empresas que fazem isso. Um exemplo ?a Sara Lee Corporation, em Chicago. Trata-se de uma empresa internacional que est?diversificando suas atividades, e empregando um grande n・ero de pessoas no mundo inteiro. A empresa dedica uma certa propor艫o das doa苺es que faz ・ artes. Essa atitude fazia parte do pensamento dos fundadores. Todas as empresas nos Estados Unidos deveriam fazer isso. Acima de uma certa margem de lucro, voc?deveria doar uma porcentagem.
P: As pessoas sentem a necessidade das artes nas suas vidas? Elas t・ plena consci・cia do papel que as artes desempenham nas suas experi・cias cotidianas, que pode ser sutil ou intang・el?
R: Bem, se voc?removesse as artes, as pessoas certamente perceberiam. Eu me lembro de ter ido ?Alemanha Oriental durante a Guerra Fria. Naquela ・oca havia arte patrocinada pelo estado na Alemanha Oriental, mas o pa・ era muito cinzento, literalmente muito cinzento mesmo. Voc?n・ sentia muita vibra艫o das cores; voc?n・ sentia nada parecido. Imagine se voc?fosse a um pa・ do Caribe e n・ visse nenhuma pintura e n・ ouvisse nenhuma m・ica. Seria um choque. Acho que isso ?o que aconteceria aqui.
P: Uma artista, que trabalha com vidro, chamada Kate Vogel, sugere que um problema pode ser o seguinte: temos uma tend・cia a ver as artes nos Estados Unidos em um pedestal (e a pensar) que a cultura fica a uma certa dist・cia. Isso pode tornar a arte, de certa forma, inacess・el, ou pode criar o medo de que ela seja inacess・el.
R: ?verdade. O problema pode ser a percep艫o das pessoas. ?muito dif・il para um cidad・ comum juntar o dinheiro para ir ao Metropolitan Opera. Mas se as pessoas realmente quiserem ir, elas v・, comprando ingressos com descontos, que se encontram dispon・eis. [Nota do editor: A maioria das organiza苺es teatrais, musicais, e de dan・ nos Estados Unidos reserva uma certa quantidade de ingressos para cada apresenta艫o, para serem vendidos com descontos, por meio de um esquema que ?bem divulgado nas respectivas comunidades.] Al・ disso, uma coisa interessante nas minhas viagens ?que at?mesmo as menores comunidades que visitei, lugares como Greenville, na Carolina do Sul, estavam desenvolvendo os seus pr・rios (e grandes) centros de artes c・icas e de artes visuais. Fiquei surpresa com isso. Fiquei surpresa ao saber que o capital para a constru艫o de novos pr・ios veio de parcerias entre o setor p・lico e o setor privado. Isso me impressionou, embora eu n・ tenha visto planos de manuten艫o a longo prazo.
P: Mas isso a impressionou.
R: Sim. E parece que todos querem uma coisa assim no seu pr・rio quintal.
P: Nas comunidades locais, voc?tamb・ n・ encontra fus・s de grupos de arte, quatro ou cinco organiza苺es art・ticas ou grupos de arte c・ica formando coaliz・s?
R: Sim. E isso tem sido muito ・il para a maioria deles. Em Canton, Ohio, h?um centro cultural que tem, sob o mesmo teto, o museu ou galeria, um grande audit・io para espet・ulos musicais, e um audit・io menor para espet・ulos teatrais, entre outras coisas.
P: E voc?encontrou isso em todos os lugares que visitou?
R: Sim, claro. Encontrei muito mais que apenas subven苺es do NEA. As comunidades estavam criando todos os tipos de projetos. Muitos defensores das artes no n・el de comunidade em toda a na艫o est・ exercendo fortes press・s para que suas subven苺es n・ sejam cortadas.
P: Fale um pouco mais sobre o papel das artes na comunidade.
R: Acontece que a cultura funciona melhor, em muitos casos, quando ela ?localizada, de modo que cada bairro, idealmente, possa ter um lugar onde as crian・s podem ir ap・ o t・mino das aulas, onde os adultos podem ir quando est・ dispon・eis, e assim poderia haver um teatro, e um espa・ para dan・ e artes visuais, e um lugar para educa艫o art・tica. Isso ?o ideal. Mas ?muito raro. Mas na minha imagina艫o eu vi toda uma na艫o fazendo isso, as pessoas simplesmente se expressando. Isso n・ quer dizer que elas t・ que vender alguma coisa. N・ significa que elas t・ que ter algum tipo de rela艫o profissional com essas atividades. Isso apenas se torna parte da sua pr・ria psique. De certa forma, acho que a maneira de pensar muda, porque as pessoas podem direcionar suas mentes para os problemas das artes. Isso ensina as pessoas a resolver problemas. Portanto, isso est?acontecendo. Mas h?muitas e muitas ・eas que est・ carentes. Veja por exemplo, a educa艫o art・tica, porque a ess・cia da vida cultural de uma comunidade come・ com as crian・s. Quanto menores elas forem, e quanto mais forem expostas ?arte, de uma forma ou de outra, melhor pode ser, e elas n・ estar・ apenas admirando a arte, elas estar・ participando, tamb・.
P: Parece que os programas de arte nas escolas s・ sempre os primeiros a serem cortados quando h?restri苺es de car・er or・ment・io.
R: Isso seria impens・el no in・io do s・ulo. Considere a situa艫o em que os Estados Unidos se orgulhavam do fato de que haviam se tornado uma sociedade industrializada, uma sociedade civilizada, como a Europa. As artes faziam parte disso. Naquela ・oca havia grandes filantropos [John D.] Rockefeller and [J.P.] Morgan, e outros, construindo edif・ios enormes. E isso tamb・ fazia parte da sua educa艫o.
P: No entanto, parece que as coisas est・ come・ndo a mudar, e que a educa艫o art・tica nas escolas prim・ias e secund・ias est?se expandindo gradualmente.
R: Ainda n・ existe um estudo abrangente sobre isso. O Kennedy Center [for the Performing Arts in Washington] [Centro Kennedy de Artes C・icas em Washington] e o NEA est・ estudando as escolas da Am・ica, em conjunto com o Departamento de Educa艫o dos Estados Unidos, para descobrir exatamente at?que ponto existe educa艫o art・tica nas escolas. Trata-se de um processo cont・uo. Mas certamente houve um decl・io nas d・adas de setenta e oitenta.
P: Portanto, este ?um dos desafios para o futuro.
R: Sem d・ida.
P: Vamos falar sobre o papel das artes na vida particular de cada um.
R: ?t・ vital quanto o p・. O que somos n・ como animais sem a linguagem? E a linguagem consiste de palavras que, por sua vez, s・ expressas pela escrita, etc. ?assim que tudo come・. A m・ica ?t・ antiga quanto o tempo.
P: Tenho a impress・ de que o American Canvas [um relat・io recente do NEA detalhando a discuss・ nacional que esse ・g・ iniciou para refletir sobre o legado da arte americana] se originou de uma crise or・ment・ia e da necessidade de repensar abordagens e prioridades. Essa ?uma impress・ correta?
R: De certa forma, sim. O Congresso nos levou a isso. Precis・amos come・r a definir, para os legisladores, o valor das artes para a sociedade. E ao faz?lo, come・mos a examinar o que o NEA vinha fazendo o tempo todo, e qual era o seu objetivo. Resumindo, tivemos que mostrar a eles qual era o valor do NEA.
P: Por que, com a beleza, a vitalidade, e a criatividade, as artes tanto fazem para catalisar a controv・sia?
R: Bem, porque algumas pessoas querem definir tudo para a sociedade, e uma arte nova pode ser muito assustadora. ?o novo que assusta as pessoas, n・ o velho. ?a mesma coisa que acontece quando as crian・s no mercado de m・ica comercial fazem coisas que s・ um pouco esquisitas. Todo mundo balan・ e treme.
P: Como as nossas tens・s e desafios or・ment・ios se comparam com o que ocorre em outros pa・es?
R: Somos ・icos no mundo em uma coisa; a taxa de doa苺es p・licas em compara艫o com o apoio do setor privado ?de 1 para 10. Noventa por cento das doa苺es para a arte neste pa・ s・ de origem privada. No resto do mundo, a situa艫o tem sido virtualmente oposta. Agora o Reino Unido est?querendo conquistar o setor privado. Os estados sociais-democratas na Escandin・ia, e no resto da Europa, que sempre contribu・am com grandes quantias para as artes, agora est・ tentando conquistar o setor privado.
P: J?que estamos falando sobre a situa艫o internacional, voc?poderia falar sobre o impacto causado pelas artes americanas no meio art・tico mundial?
R: Bem, ?impressionante. ?・vio que voc?est?vendo o impacto que o nosso cinema, m・ica e ind・tria editorial t・ sobre o resto do mundo. ?um pouco mais dif・il avaliar o impacto das artes visuais.
P: Na sua opini・, quais s・ os desafios que enfrentamos como na艫o, nos quais devemos nos concentrar, em termos de estabelecer ou preservar o nosso legado art・tico?
R: Um deles ?compreender que depois de mais de 150 anos de civiliza艫o, com a Revolu艫o Industrial nos Estados Unidos, n・ temos, de fato, um legado cultural americano significativo. Ele pode ser influenciado pelas pessoas que vieram da Europa para os Estados Unidos, mas j?n・ ?mais dominado por temas europeus. Portanto, essa ?uma ・oca ideal para come・r a definir o que ?isso, os padr・s diferentes, a di・pora. Quero dizer, imagine se voc?pudesse rastrear a heran・ cultural do povo polon・ ou do povo de Gana nos Estados Unidos, o que a sua heran・ cultural era para qualquer comunidade para a qual eles vieram. Isso seria fascinante! Tamb・ temos que come・r a definir quem somos como na艫o, em termos de arte. Como na艫o de teatro, somos apenas a Broadway [o teatro comercial], ou somos todos aqueles outros espa・s [o teatro n・-comercial]? Se voc?for a qualquer lugar no pa・ e falar sobre teatro, parece que as pessoas s?sabem sobre a sua pr・ria comunidade e sobre a Broadway.
P: Muitas vezes eu me perguntei por que as pessoas n・ t・ compartilhado as coisas entre as organiza苺es art・ticas em regi・s diferentes.
R: As pessoas est・ come・ndo a fazer isso agora por motivos econ・icos. Isso est?sendo feito na ・era, e na m・ica tamb・, acredite ou n・, comunidades compartilhando orquestras, companhias de ・era compartilhando cen・ios e figurinos. E entre as companhias de bal?tamb・; elas est・ compartilhando cidades. Essa ?a coisa inteligente a ser feita, e ?uma tend・cia saud・el. Isso significa que os artistas t・ uma vida. Eles ter・ 40, 50 semanas de trabalho por ano, mas isso vai acontecer em cidades diferentes
P: Voc?pode dizer alguma coisa sobre como a tecnologia est?come・ndo a causar um impacto, tanto sob o ponto de vista organizacional, no NEA quanto na cultura propriamente dita?
R: No momento, eu a vejo apenas como uma ferramenta. Eu acho que os artistas ainda est・ avaliando a maneira pela qual v・ us?la para que ela se transforme em uma forma de express・ art・tica. Ela ?inteiramente aberta e t・ incipiente que ningu・ a conhece de fato. Mas ela certamente ?・il para se dirigir organiza苺es, fazer pesquisas demogr・icas e ter acesso ・ pessoas certas. Por exemplo, a pe・ em que estou trabalhando no momento, Honour, conseguiu sua plat・a de pr?estr・a por meio de uma lista [mailing list] que indicou o tipo de plat・a que poderia estar interessada nesta pe・. Isso ajuda muito!
P: Ainda n・ falamos sobre o NEA. Ele tem uma fun艫o multifacetada, como catalisador, provedor, foco de atra艫o para que as pessoas se unam...
R: ...uma fun艫o de embaixador no mundo.
P: Ele cumpre bem a sua fun艫o?
R: Eu acho que sim. A grande vantagem dele ?o sistema de jurados de cada ・ea, que traz cidad・s do pa・ inteiro para julgar os pedidos de subven苺es. A coisa que eu mais gostava de fazer no NEA era participar desses j・is.
P: Em outras palavras, artistas de cada ramo das artes decidem sobre subven苺es para o seu ramo.
R: Sim. Mas n・ n・ poder・mos nem come・r a preencher todas as necessidades no pa・ com o or・mento que t・hamos. Ent・, quando houve um corte no or・mento, tivemos que nos fixar em determinados objetivos e promover parcerias, que s・ excelentes. Mas ・ vezes voc?pensa, essa organiza艫o de artes visuais em Des Moines [Iowa] realmente precisaria de US$100,000. E s?vai receber US$10,000, e vai ter que arranjar muito dinheiro para fazer o que tem que fazer. Portanto, o que voc?est?vendo ?um decl・io no tipo mais emocionante de arte, porque as pessoas n・ podem realizar os seus sonhos. ?muito dif・il realizar os seus sonhos, somente sob o ponto de vista t・nico, em uma organiza艫o de artes c・icas ou de artes visuais. Todos os museus que eu conhe・ t・ um d・icit no seu or・mento de restaura艫o. E eles n・ est・ treinando muitos novos restauradores - eles n・ t・ dinheiro para isso.
P: As batalhas or・ment・ias fizeram com que as pessoas se concentrassem mais na import・cia das artes na vida?
R: Eu acho que as pessoas querem cultura, mas ainda temos somente 24 horas em um dia. H?tantas coisas que prendem a aten艫o das pessoas. Na verdade, o computador tomou conta das vidas das pessoas.
P: O que a faz se sentir mais orgulhosa em rela艫o a esses quatro anos?
R: Acho que o meu maior motivo de orgulho ?n・ apenas manter o NEA vivo, mas tamb・ unir as for・s da defesa de id・as nas artes de modo que elas est・ trabalhando em conjunto, e n・ separadamente. Antigamente havia uma separa艫o maior na entidade, entre a m・ica e a arte, e eu dizia, "Sabe de uma coisa? ?tudo a mesma coisa - as manifesta苺es ?que s・ diferentes".
P: O que faz com que voc?se sinta mais otimista?
R: Os artistas sempre prevalecem. Eles sempre se viram. Mesmo quando se trata de cria艫o minimalista, eles criam. E eu tamb・ estou otimista pois, como h?mais interesse nas artes quando a economia est・ boa, isso vai continuar.