Uma falta de informação que torne incerta a tarefa de julgar a atual situação econ¡¦ica e financeira dos pa¡¦es aumenta os riscos e custos dos neg¡¦ios, diz John T. Bennett, consultor de economia e presidente do Instituto Econ¡¦ico da Cor¡¦a de 1982 a 1989.Uma importante ferramenta para que essas condições se tornem mais transparentes ?a Norma Especial de Disseminação de Dados [Special Data Dissemination Standard] (SDDS), do Fundo Monet¡¦io Internacional, diz Bennett.
A SDDS requer que os governos participantes forne¡¦m uma grande variedade de dados econ¡¦icos, que s¡¦ publicados no site do FMI na Web, diz Bennett, que trabalhou no Servi¡¦ Diplom¡¦ico dos Estados Unidos durante 26 anos.
Quando o governo coreano finalmente pediu ajuda ao Fundo Monet¡¦io Internacional (FMI) no outono passado, uma das quest¡¦s mais cr¡¦icas era estimar o montante da d¡¦ida a curto prazo que venceria no ano seguinte. Ningu¡¦ sabia. S?se chegou a um valor razoavelmente preciso depois de v¡¦ias semanas, e mesmo assim esse montante foi contestado durante algum tempo.
Essa incerteza aumentou grandemente a sensação de risco que os emprestadores e investidores estrangeiros sentiram a respeito dos seus investimentos na Cor¡¦a. Ela tamb¡¦ afetou os coreanos, que come¡¦ram a perceber que manter recursos na sua pr¡¦ria moeda era um investimento de risco. Aqueles que puderam, trocaram os seus won coreanos por d¡¦ares americanos e ienes japoneses. Isso causou um brusco decl¡¦io do valor do won, o que, por sua vez levou a outros problemas s¡¦ios, como a elevação dos pre¡¦s dos produtos importados, taxas de juros mais altas, fal¡¦cias de empresas e bancos e desemprego.
A falta de dados b¡¦icos confi¡¦eis sobre a economia nacional produziu resultados similares em todas as economias asi¡¦icas que, no momento, est¡¦ tendo dificuldades. Mas isso n¡¦ ?nenhuma novidade. Uma falta de informações resultou na crise do M¡¦ico em 1994 e em in¡¦eras crises anteriores. Crises financeiras ocorriam regularmente nas economias de mercado, mas eram suficientemente raras para que as pessoas as esquecessem.
Melhorando a Coleta de Dados Financeiros
Ap¡¦ a crise mexicana de 1994-95, o FMI pediu aos seus membros - 182 pa¡¦es, atualmente - que fornecessem dados mais completos e precisos sobre as suas economias e d¡¦idas internacionais. Em 1996 o FMI implementou a Norma Especial de Disseminação de Dados [Special Data Dissemination Standard] (SDDS), que estabelece os crit¡¦ios b¡¦icos para os dados que os pa¡¦es-membros dever¡¦ fornecer sobre as condições econ¡¦icas e financeiras, para serem colocados ?disposição do p¡¦lico no site do FMI na Web. O Fundo tamb¡¦ criou o Sistema Geral de Disseminação de Dados [General Data Dissemination System] (GDDS) para auxiliar os pa¡¦es na melhoria da sua coleta e publicação de dados.
Os novos dados representam uma grande melhoria em relação aos que se encontravam dispon¡¦eis anteriormente, e o FMI, no momento, est?aceitando sugest¡¦s de todos os interessados, sobre como o sistema pode ser ainda mais aperfei¡¦ado. Os benef¡¦ios depender¡¦ de quantos pa¡¦es atenderem ¡¦ normas para a apresentação dos dados e at?que ponto as informações adicionais ser¡¦ adequadamente utilizadas no mundo.
Embora o processo da criação do novo sistema estivesse bem adiantado em 1997, n¡¦ havia dados suficientes dispon¡¦eis naquela ocasi¡¦ para chamar a atenção para os crescentes problemas na ¡¦ia. A crise asi¡¦ica levou o G-7, o Grupo dos Sete principais pa¡¦es industrializados, na sua c¡¦ula em Birmingham, Inglaterra, em maio deste ano, a solicitar melhorias significativas na coleta de estat¡¦ticas do FMI.
A declaração do G-7 caracterizou a maior transpar¡¦cia - mais e melhores informações a respeito das condições econ¡¦icas - como uma parte crucial do esfor¡¦ para reformar a arquitetura financeira global. O G-7 fez tr¡¦ recomendações para que houvesse mais transpar¡¦cia:
Que o FMI adote um c¡¦igo de boas pr¡¦icas para a pol¡¦ica financeira e monet¡¦ia, similar ao que existe sobre a transpar¡¦cia na pol¡¦ica especial.
Que o FMI publique mais informações a respeito dos seus membros e suas pol¡¦icas e sobre a seu pr¡¦rio processo de tomada de decis¡¦s.
O Alto Pre¡¦ do Risco
Os mercados s?funcionam quando possuem informações. Quanto melhores forem as informações, melhor ser?o funcionamento dos mercados. As informações de m?qualidade fazem com que os riscos sejam maiores.
Os problemas causados pela informação de m?qualidade ocorrem em muitos n¡¦eis, e todos eles afetam o n¡¦el de risco do investimento estrangeiro. Os economistas fazem uma distinção entre os riscos contra os quais se pode ter um seguro, e os outros, que n¡¦ oferecem essa opção. Nos primeiros, os preju¡¦os ocorrem com uma freqüência mais ou menos conhecida, e podem ser tomadas precauções, separando reservas para esse fim, ou fazendo seguro. O risco ?um custo l¡¦uido e certo nos neg¡¦ios. O risco que n¡¦ pode ser segurado ?t¡¦ imprevis¡¦el que os acontecimentos desfavor¡¦eis inevitavelmente s¡¦ uma surpresa. Eles s¡¦ raros, mas quando acontecem, as conseqüências podem ser catastr¡¦icas.
O risco imprevis¡¦el aumenta muito o custo de se fazer neg¡¦ios. Ele tende a manter os pre¡¦s altos, diminuindo a concorr¡¦cia - somente os mais aventureiros se disp¡¦m a correr riscos, e portanto, a oferta ?limitada e os vendedores podem cobrar caro. Portanto, a redução de tal risco ?um servi¡¦ prestado ao p¡¦lico.
Embora n¡¦ se possa fazer seguro contra o risco imprevis¡¦el, o sistema pode ser projetado para reduz?lo. Essa ?a miss¡¦ que cabe ao FMI no momento. O objetivo do FMI ao desenvolver a GDDS e a SDDS ?reduzir o risco, publicando um conjunto padr¡¦ de informações sobre uma economia, com dados que atendem a crit¡¦ios geralmente aceitos quanto ?precis¡¦, que s¡¦ publicados regularmente, e que s¡¦ fornecidos em tempo h¡¦il.
Isso parece bastante ¡¦vio, e, no entanto, n¡¦ tinha sido feito anteriormente, em parte porque n¡¦ era considerado necess¡¦io; pensava-se que os mercados j?estavam funcionando suficientemente bem. Al¡¦ disso, os governos pensavam que tais dados limitariam a sua liberdade de elaborar a pol¡¦ica econ¡¦ica. Por exemplo, se uma economia estivesse come¡¦ndo a ter problemas e se essa informação fosse amplamente divulgada, as taxas de juros subiriam e ficaria mais dif¡¦il fazer empr¡¦timos no exterior. Mas os dados em conformidade com a SDDS poderiam impedir os governos de esconder a situação.
As Lições das Crises Anteriores
As experi¡¦cias do M¡¦ico e da ¡¦ia deixaram bem claro que, para diminuir a possibilidade de as crises acontecerem, um conjunto mais amplo de dados de melhor qualidade se faz necess¡¦io. Depois do que aconteceu com o M¡¦ico, as pessoas pensavam que a culpa era dos empr¡¦timos feitos pelo governo. Depois do que aconteceu na ¡¦ia, sabemos que tamb¡¦ ?preciso ficar de olho nos empr¡¦timos feitos pelo setor privado - e que o mercado comete erros, ¡¦ vezes erros graves. A SDDS exigir?dados sobre empr¡¦timos privados, para que os credores possam ter mais certeza dos riscos que enfrentam.
A ¡¦ia ensinou outra lição. As pessoas geralmente pensavam que os empr¡¦timos a curto prazo somente seriam solicitados quando a finalidade do empr¡¦timo fosse de curto prazo. Por exemplo, o dinheiro no curto prazo era adequado para o financiamento de exportações porque os fundos para pagar o empr¡¦timo seriam gerados antes do vencimento.
Mas o dinheiro no curto prazo pode ser mais barato do que no longo prazo, e portanto, ¡¦ vezes, como antes da crise na ¡¦ia, h?um poderoso incentivo para se tomar empr¡¦timos a curto prazo e conceder empr¡¦timos a longo prazo. Os credores e devedores eram induzidos a agir dessa forma, no per¡¦do que antecedeu a crise, pelo apoio do governo ?taxa de c¡¦bio e pelas garantias, por parte do governo, quanto ao repagamento. Mas a intervenção dos governos tem pouca probabilidade de ser permanente porque os governos podem perder a capacidade de cumprir suas garantias. Portanto, o FMI est?solicitando melhores dados sobre todas as dividas externas de uma economia, fazendo com que o excesso de empr¡¦timos se torne menos prov¡¦el.
Os problemas no sistema financeiro global tamb¡¦ ocorrem de outras formas. Os bancos em v¡¦ios pa¡¦es asi¡¦icos tinham grandes montantes em empr¡¦timos n¡¦ pagos; os devedores n¡¦ tinham condições de pagar os juros contratados e nem de repagar o principal. Os credores podem ter pensado que estavam protegidos pelo patrim¡¦io do banco, mas a parte dos seus ativos referente aos empr¡¦timos n¡¦ pagos pode ter excedido o seu patrim¡¦io. Em alguns pa¡¦es, os credores sabiam que os devedores estavam em maus lençóis mas emprestavam assim mesmo, achando que o governo cobriria o empr¡¦timo, se fosse preciso. Para evitar essas ocorr¡¦cias, o FMI est?procurando obter informações de melhor qualidade sobre as d¡¦idas, dom¡¦ticas e externas, dos sistemas financeiros dos pa¡¦es-membros.
Os empr¡¦timos excessivos tamb¡¦ tornaram as empresas vulner¡¦eis. Freq¡¦ntemente as empresas asi¡¦icas t¡¦ montantes em empr¡¦timos quatro ou cinco vezes maiores do que o seu patrim¡¦io, em comparação com a m¡¦ia, das empresas americanas, de empr¡¦timos iguais a duas vezes o patrim¡¦io. Isso torna as coisas dif¡¦eis para as empresas asi¡¦icas quando o ciclo de neg¡¦ios reduz as vendas e os lucros. Elas n¡¦ possuem fundos para pagar as suas d¡¦idas. Sem financiamento do patrim¡¦io, que ?o normal para as empresas americanas, as empresas podem simplesmente reduzir o dividendo, o que lhes d?maior possibilidade de superar uma crise. No entanto os pa¡¦es asi¡¦icos financiaram uma boa parte da sua expans¡¦ com cr¡¦ito banc¡¦io, porque os seus mercados de capitais eram subdesenvolvidos e teriam retardado o seu crescimento. Os poupadores colocavam dinheiro nos bancos porque as taxas de juros eram altas e os governos as garantiam.
Uma ¡¦tima forma de informação crucial para a transpar¡¦cia consiste de contas das empresas em conformidade com normas mundiais. O que os emprestadores sempre querem ?a verdade sobre uma empresa. O problema ?que embora a contabilidade pare¡¦ precisa, em ¡¦tima an¡¦ise o emprestador precisa exercer o seu julgamento. Aqui, cada governo exerce o papel de decidir que informações devem ser exigidas, que facilitar¡¦ os bons julgamentos.
At?mesmo nos pa¡¦es desenvolvidos mais adiantados, a contabilidade pode ser problem¡¦ica. Os Estados Unidos t¡¦ o Conselho de Normas de Contabilidade Financeira [Financial Accounting Standards Board], que, ao longo dos anos tem melhorado substancialmente a qualidade das contas da empresas americanas. As fraudes ainda acontecem, mas com muito menos freqüência e com resultados muito menos danosos do que anteriormente. E mesmo com as melhores informações, os credores podem cometer erros. No entanto, agora, o mercado, de modo geral, sabe quando uma empresa est?em dificuldades.
Os Custos Da Globalização
A globalização - a disseminação da concorr¡¦cia em determinadas ¡¦eas de atividade, de modo a incluir um n¡¦ero cada vez maior de pa¡¦es - ?considerada, em geral, uma coisa boa, porque ela eleva os n¡¦eis de vida em todos os lugares. No entanto ela tem custos: quando as coisas n¡¦ d¡¦ certo, os efeitos se fazem sentir rapidamente no mundo inteiro. A concorr¡¦cia global traz consigo um requisito de que as contas financeiras estejam em conformidade com normas internacionais. A combinação de melhores contas e redução da alavancagem das d¡¦idas das empresas far?com que os credores tenham mais confian¡¦ nos seus julgamentos quanto a riscos, diminuindo os custos dos empr¡¦timos.
As informações aperfei¡¦adas, colocadas ?disposição pelo FMI, n¡¦ ser¡¦ lidas somente por credores individuais, que ¡¦ vezes exibem uma exuber¡¦cia irracional. O FMI, os ministros da fazenda, ¡¦g¡¦s regulamentadores dos bancos, e as ag¡¦cias de classificação como a Moody's, estar¡¦ todos atentos, para que as situações de perigo tenham menos probabilidade de serem ignoradas. N¡¦ podemos criar uma expectativa de que eliminaremos todos os riscos, mas uma redução substancial ajudar?muito a evitar mudan¡¦s dr¡¦ticas como as que ocorreram na crise asi¡¦ica.
O anseio pela transpar¡¦cia, pelo menos em escala global, ?recente. Ele surgiu porque as economias est¡¦ se tornando cada vez mais interdependentes, n¡¦ apenas no que se refere ao com¡¦cio de produtos e servi¡¦s mas tamb¡¦ aos investimentos e empr¡¦timos internacionais. Todos, no planeta, podem se beneficiar dessa tend¡¦cia, mas o benef¡¦io pode desaparecer se os riscos de tais transações forem altos e imprevis¡¦eis.
Perspectivas
Econ¡¦icas
Revista Eletr¡¦ica da USIA, Vol. 3, N?4,
Agosto de 1998